terça-feira, 8 de março de 2011

Dia da mulherzinha

Muita gente pode pensar o contrário, mas não, eu não me ofendo quando me desejam parabéns pelo Dia da Mulher. Só não faz diferença! Considerando que metade da população mundial é mulher, não vejo nenhum mérito nisso.
Tinha em mente apenas escrever que o dia em questão poderia até existir, desde que significasse mais do que rosas e chocolates*. Não é um dia de sair dizendo que as mulheres são especiais, que fazem o mundo mais bonito. Deveria ser uma oportunidade de conscientização de fato, para estimular a valorização de políticas públicas que visem aliviar o sofrimento de milhões de mulheres que ganham menos que os homens, que não tem creches para deixar os filhos, que lutam por pensão alimentícia de um crápula, que se submetem a agressões físicas e psicológicas por dependência financeira, etc. 
Ocorre que tais dificuldades, por serem de natureza econômica, acabam por atingir somente mulheres de classes sociais baixas, motivo pelo qual as da classe média e alta acham que o feminismo não faz mais sentido (neste sentido, veja mais aqui).
Saindo dessa realidade esquecida, o amigo André Coelho fez uma manifestação maravilhosa, que traz o problema para o nosso mundinho, o das mulheres que tem as mesmas oportunidades profissionais e educacionais que os homens. Disse ele: É revoltantemente hipócrita dar "parabéns" e uma rosa para a mulher que não teve sua promoção porque é mulher, para aquela que é assediada no trabalho porque é mulher, para a mãe que precisa cuidar sozinha das crianças porque é mulher, para a adolescente que não pôde viajar com o namorado porque é mulher, para a menina que precisa lavar a louça depois do jantar porque é mulher.
Quer dizer, os irmãos, pais, namorados, maridos e amigos acham que as suas mulheres são tão, mas tão especiais, que merecem ir ao supermercado, cuidar da casa e lavar a louça todo dia, sozinhas! Não é fantástico? Não é fascinante que o mesmo homem que no Dia da Mulher leva a esposa para almoçar fora, para que ela não tenha trabalho, a deixe fazer tudo sozinha durante o resto do ano? Eu acho comovente.
É intrigante que o mesmo pai que presenteia a esposa e a filha neste dia, e que se diz um admirador das mulheres, não deixe a filha viajar com o namorado, com seu próprio dinheiro, enquanto o filhão é incentivado, inclusive financeiramente, a fazê-lo.
Melhor ainda é o chefe que distribui homenagens às suas funcionárias, mas não as promove porque elas supostamente são emocionalmente instáveis, não sabem lidar com pressão e, tragédia dos tragédias, podem ter um filho! (Por favor, leiam sobre isso aqui).
Então, amigas, a despeito de vocês estudarem mais que os homens e terem seus objetivos profissionais atingidos até agora, o preconceito está dentro da casa de vocês. Ou, dentro de vocês, quando chamam uma mulher com vida sexual ativa, sem parceiro fixo, de vagabunda. Está dentro de vocês quando estão loucas de vontade e não transam na primeira noite, para que o homem não a veja com maus olhos. Pior do que isso, está sendo perpetuado por vocês, quando insistem em criar filhas como princesinhas e meninos como super-heróis. Crianças são apenas crianças. Todo o resto, dos papéis pré-definidos,  vocês que colocam na cabeça delas.
Pensem nisso. Aceitem de bom grado as flores e chocolates, não tenham vergonha de gostar de mimos - os homens também gostam! - mas vejam bem de onde eles vem, se de um homem que realmente vê a mulher como igual e só aproveita o dia para ser gentil, ou se de um homem machista, que lhe dá um agradinho como quem dá banana para macaco de zoológico, só para ver ele ficar felizinho.


Qualquer mulher gosta de receber flores e chocolates, mas achar que no dia 08 de março isso é uma obrigação masculina, é coisa de mulherzinha. Eu acho.