quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Inimigas

- Amiga, ela não chega aos teus pés!

É com frases dessa natureza que as mulheres mais bem intencionadas se referem à ex do nosso atual ou à atual do nosso ex. Porque parece muito óbvio na cabeça de uma mulher que a ex do nosso atual ou a atual do nosso ex é nossa inimiga. Alguém que às vezes nós nunca nem vimos, que poucos dias antes não sabíamos sequer que existia, que teve a infeliz ideia de se encantar por aquele cara provavelmente encantador pelo qual nós também nos apaixonamos.
É um mecanismo estranho esse, em que somos levadas a desqualificar as pessoas que passaram pela vida do nosso atual e as que passaram e passarão pela vida do nosso ex. Porque, sabem?, aquele cara nos escolheu e desqualificar todas as outras escolhas dele é insinuar que ele não é lá muito bom nessa coisa de escolher.
Mas é assim que a roda gira no mundo das mulheres, que foram ensinadas pela sociedade (e também um pouco pela biologia, vá lá) que precisavam competir entre si por aqueles que consideravam o melhor exemplar masculino para lhes prover e proteger. E, a despeito de não precisarmos mais de provedores e protetores, seguimos com essa lógica insana de não gostar de alguém que não conhecemos porque temos gostos em comum. Talvez sejamos até parecidas em coisas essenciais, por isso despertamos a afeição da mesma pessoa.
O cruel dessa cultura é que todas sempre perdem, porque não existe uma pessoa melhor ou pior que a outra em tudo. Então, sua "rival" terá coisas melhores e piores que você, não tem jeito. E ambas tendem a se sentir desvalorizadas nos quesitos em que se consideram perdedoras, não importa o quanto as amigas tentem, "bondosamente", jogar a outra pra baixo.
É tempo de desconstruir velhos padrões de comportamento e reinventar a sociedade, reinventar a nós mesmas, afastando tudo o que não faz sentido, tudo o que gera sofrimento e raiva gratuitas. Desconstruir a rivalidade feminina é uma bandeira antiga do feminismo e um excelente começo de libertação das mulheres.

domingo, 5 de julho de 2015

Sobre estar só

Dizer que antes de entrarmos em um relacionamento devemos ser felizes na nossa própria companhia é daqueles clichêzões sobre o amor. Parece uma frase vazia para justificar a solidão, mas, se desenvolvermos o raciocínio, ela é valiosa.
Estar sozinho é o estado originário, digamos assim. Não podemos sempre garantir que estaremos com outra pessoa, então, o nosso "eu" é o que temos como segurança. A forma como nos sentimos quando estamos sós define a qualidade de todas as nossas relações (românticas, familiares ou de amizade). Se estar sozinho é algo tedioso ou deprimente, qualquer companhia melhor do que isso basta, o que não significa, por óbvio, que seja uma boa companhia. Por outro lado, aquele que consegue preencher com riqueza seus momentos solitários tem um parâmetro de qualidade muito maior, só aceitando uma companhia que lhe dê mais prazer que seus livros, filmes, músicas e reflexões. 
A linguagem não-verbal é poderosa. É o que Osho fala sobre se mover como mestre e não como mendigo. As pessoas com quem nos relacionamos percebem quem está mendigando carinho e companhia. E não é por mal que elas dão esmolas do seu amor, mas há a tendência humana de só se esforçar na medida em que é demandado. E como aceitamos o amor que achamos que merecemos, quem está carente aceita qualquer coisa, sem muito critério.
Torne-se um mestre, se quiser bons parceiros e amigos, porque mestres não se sentem atraídos por mendigos, que lhes privam de uma gostosa solidão, mas não lhes oferecem companhia.

Sobre tornar–se irresponsável

Das coisas lindas que os 30 anos me trouxeram: os outros estão me achando cada vez mais irresponsável. E eu estou achando ótimo.
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"Quando você começa a ficar responsável em relação a si mesmo, começa a abandonar suas máscaras. Os outros começam a se sentir perturbados, porque eles sempre tiveram expectativas e você satisfazia essas exigências. Agora eles sentem que você está ficando irresponsável.
Quando os outros dizem que você está sendo irresponsável, estão simplesmente dizendo que você está saindo do controle deles. Você está ficando mais livre. Para condenar o seu comportamento, eles o chamam de irresponsável.
Na verdade, sua liberdade está crescendo e você está se tornando responsável. Responsabilidade significa a habilidade de responder. Ela não é uma obrigação que precisa ser satisfeita no sentido comum. Ela é capacidade de responder, sensibilidade.
Porém, quanto mais sensível você se tornar, mais descobrirá que muitas pessoas acham que você está ficando irresponsável – e você precisa aceitar isso -, porque os interesses delas, os investimentos delas não serão satisfeitos. Muitas vezes você não satisfará as suas expectativas, mas ninguém está aqui para satisfazer as expectativas dos outros.
A responsabilidade básica é para com você mesmo. Assim, um meditador primeiro se torna muito egoísta. Porém, mais tarde, quando ele ficar mais centrado, mais enraizado em seu próprio ser, a energia começará a transbordar. Mas isso não é uma obrigação, não é que a pessoa precise fazê-lo. Ela adora fazê-lo; trata-se de um compartilhar." (Osho)

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Deixa ser como será



"Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história
 poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os
dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam
seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores
vão dormir. Nesse gênero há porventura alguma cousa que reformar,
e eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Otelo
mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato, os três seguintes seriam
dados à ação lenta e decrescente do ciúme, e o último ficaria só com
as cenas iniciais da ameaça dos turcos, as explicações de Otelo e
Desdêmona, e o bom conselho do fino lago:  'Mete dinheiro na bolsa'.
Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no teatro a charada
habitual que os periódicos lhe dão, por que os últimos atos explicam o
desfecho do primeiro, espécie de conceito, e, por outro lado, ia para a
cama com uma boa impressão de ternura e de amor:

'Ela amou o que me afligira,
Eu amei a piedade dela.'"
(Dom Casmurro, Machado de Assis)


Quem chega para ficar? Quem não se demora? Que encontros ocasionais poderão virar belas amizades, romances, parcerias? Seria bom saber das histórias pelo fim?
O trecho acima trata da primeira vez que Capitu viu Escobar. Ocorreu de forma tão rápida e desimportante que Bentinho, coitado, não poderia imaginar o que viria. E se soubesse de antemão, teria renunciado à tudo o que viveu com o amor de sua vida?
Nos versos de Amarante, "e se eu fosse o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado, quem então agora eu seria?". Se nossas experiências (boas e ruins) formam a nossa personalidade, talvez seja melhor não saber o que esperar. Por medo da dor, certamente dispensaríamos um bocado de coisas boas. O que sobraria de nós? Um vazio.

quarta-feira, 1 de maio de 2013

Desajustados

"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. 
Os criadores de caso.
Os pinos redondos nos buracos quadrados.
Aqueles que vêem as coisas de forma diferente.
Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo.
Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los.
Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los.
Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente.
E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais.
Porque as pessoas loucas o bastante para 
acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."
(Jack Kerouac)


Ainda me assusto com padrões e com o quanto as pessoas os tomam como verdades absolutas. Uma análise rasteira das últimas décadas é suficiente para concluir que eles simplesmente se transformam totalmente. Totalmente.
Há uns dias, em uma conversa sobre a viabilidade jurídica dos relacionamentos poliafetivos, um conhecido se exaltou um pouco, dizendo que certas coisas não mudariam jamais, que a família era uma instituição secular, que nunca tinha passado por uma alteração substancial. O argumento não durou dez segundos, só o tempo dos demais se recuperarem do susto que a afirmação provocou. A família é uma instituição secular, que mudou quase que completamente nos últimos cinquenta anos! Na minha opinião, para muito melhor, afinal, o homem não é mais dono da mulher e dos filhos, não é mais aquele que não pode ser contestado, que pode violentar. O patriarcado está nos seus suspiros finais. Qualquer um se casa e se divorcia quantas vezes quiser. Ou evita o desgaste e nem se casa. E, em todas essas mudanças, sempre surgiram os cavaleiros do apocalipse, anunciando o fim da família (e do mundo, consequentemente).
Em outra ocasião, uma vizinha perguntou se eu tinha filhos. Respondi que não e ela lamentou. Disse que conseguia imaginar duas criaturinhas lindas correndo por aí. Chamou-me atenção o duas. Porque duas? Porque esse é o padrão atual. Quando um casal não tem filhos, um exército de chatos questiona quando eles pretendem ter. Ao nascer o primeiro, começam as cobranças para o próximo. E, ainda na gravidez do segundo, um montão de gente sugere que está na hora de parar. 
Que mundo é esse em que terceiros se sentem tão à vontade para determinar que alguém tem que ter filhos e, de preferências, doisÉ o mesmo mundo que diz que as mulheres devem ser mais jovens que seus parceiros, que devem casar entre 26 e 28, enquanto eles devem fazê-lo entre 28 e 30 anos. Com aproximadamente dois anos de casados, é bom que comecem a planejar os filhos. Dois, como já aprendemos. Convém que esses relacionamentos sejam heterossexuais e monogâmicos, ao menos nas aparências (definir um relacionamento aberto de comum acordo não pode, mas trair escondidinho não tem problema, se o adúltero for homem, é claro).
Quem não é heterossexual, não quer casar casar e/ou ter filhos, ou faz isso antes/depois do que as pessoas esperavam, é considerado um desajustado. Tem que ter muito equilíbrio e maturidade para viver bem consigo mesmo quando se está fora dos padrões, especialmente para as mulheres, para quem não existe a possibilidade de não casar por opção, mas sim porque algum homem não a quis.
Deveria ser óbvio que não podem existir padrões para as relações pessoais. As coisas não acontecem ao mesmo tempo pra todo mundo e nem da mesma forma. Imposições de comportamento só fazem com que muitos tomem decisões sérias para não frustrarem as expectativas alheias, o que não tem como dar certo.
Enquanto o mundo caminha para uma maior flexibilidade nos relacionamentos, é natural que haja uma reação dos que têm pavor do diferente. Na internet, surgiu a definição perfeita para esses tipos: os cagadores de regras, sempre cheios de "isso pode", "isso não pode". Não seja um.
Sempre que for justificar alguma coisa com "isso não é normal" ou "todo mundo faz assim", lembre-se do quanto os cagadores de regras do passado soam ridículos hoje em dia. Tenha em mente o absurdo que é alguém ter sido contrário ao casamento interracial, ao divórcio, ao trabalho feminino, ao sexo fora do casamento, às uniões estáveis. Algumas dessas coisas eram combatidas com veemência há menos de dez anos.
É tempo de decidir de que lado você quer estar no futuro próximo: dos desajustados ou dos ultrapassados?

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A hipocrisia definindo as eleições. De novo.


No início do ano, havia um consenso sobre quem seria um dos candidatos mais fortes à Prefeitura de Belém. Com a maior votação do Estado nas eleições para Deputado Federal, participação ativa na CPI estadual da Pedofilia (com resultados concretos, dentro dos limites da CPI) e, no primeiro ano de mandato no Congresso Nacional, escolhido Presidente da CPI do Tráfico de Pessoas, Arnaldo Jordy era um dos nomes com maior aprovação. Junte-se a isso a ausência de escândalos, em muitos anos de vida pública, e uma atuação sempre expressiva, com proposição de projetos, requerimentos, emendas, etc.
Em resumo, não havia nada que depusesse contra ele. Ainda que alguns não reconhecessem o bom trabalho nos cargos legislativos que ocupou, ninguém lhe tirava o mérito de ser sério e confiável.
O que ocorreu neste ano, todos sabem: o jornal de propriedade daquele que é sinônimo de corrupção no Brasil inteiro, e que tem um parente na disputa, divulgou o áudio de uma conversa de Jordy com a namorada, em que ele manifestava seu desejo de não ter a criança que ela estava esperando. A partir daí, houve uma queda vertiginosa, segundo os nada confiáveis institutos de pesquisa.
Independente das pesquisas, é perceptível a reação de rejeição de muitas pessoas, quando digo em quem irei votar. É como se eu estivesse votando em um pária e sempre tenho que me explicar. Fico indignada. Não porque as pessoas não concordem comigo e queiram votar em outro candidato, mas com o moralismo e a hipocrisia. Principalmente, com o fato de a eleição para escolher quem vai governar esta cidade abandonada ser decidida por uma questão privada e não pública (como, aliás, quase ocorreu na disputa presidencial).
Respeito quem é veementemente contra a legalização do aborto. Não são só questões religiosas que embasam essa opinião, apesar de predominantes. Há argumentos muito sensatos, que fazem com que eu a considere legítima, em um estado laico (ou seja, não considero opiniões religiosas legítimas, para fins de elaboração da legislação e de direcionamento das políticas públicas).
O que me espanta é a repulsa de pessoas que entendem o aborto como uma opção válida de controle de natalidade, cuja decisão, em princípio, cabe à mulher. Elas costumam condenar o candidato por ele ter “forçado” a namorada a fazer um aborto. Calma, tigre! Não foi bem assim! Quem ouviu o áudio percebe muito bem que há um temperamento um pouco mais exaltado, comum a qualquer um que é surpreendido com uma gravidez indesejada (e, estranhamente - dada a facilidade da prevenção - todo mundo já conviveu com alguém nessa situação). Não há, entretanto, uma violência. Dizer que a decisão é exclusiva da mulher é uma barbaridade tão grande quanto dizer que “o filho é da mulher”.
Em última análise, a escolha será dela, que tem o livre arbítrio de tomar ou não uma medida abortiva, mas isso não significa, em hipótese alguma, que a opinião do pai deva ser simplesmente descartada. No mundo ideal, ele arcará com as mesmas conseqüências que ela (salvo as físicas, por óbvio), após o nascimento do bebê, com a necessidade de provê-lo financeira e emocionalmente. Não pode ser simplesmente retirado o direito do homem de dizer “sinceramente, eu não desejo esse filho”. Assim como isso não o exime das responsabilidades que surgirem após o nascimento da criança.
Não consigo compreender quem, sendo a favor da legalização do aborto, tem tanta rejeição ao candidato. Ele não foi um crápula. Ele manifestou uma vontade, uma opinião e, ao fim, respeitou a decisão da mulher, já que a criança nasceu (e não foi por causa da repercussão do áudio, pois, quando da divulgação, a gravidez já estava em estágio avançado).
Pra ser sincera, também não consigo entender a rejeição de quem é contra a legalização do aborto. Sem hipocrisia: por ano, 200 mil abortos são realizados no Brasil, segundo a ONU! É muito provável que todo mundo conheça alguém que fez um e, inclusive, saiba disso. E nem por isso essas pessoas são consideradas párias da sociedade. Elas não perdem a confiança dos outros, não são presas, não são demitidas dos seus empregos.
Dizer que o candidato incentivou um “crime” é uma realidade bem flexível. Sim, a conduta está tipificada no Código Penal, mas é amplamente tolerada. As leis não acompanham instantaneamente a mudança de pensamento da sociedade (basta lembrar que, há menos de dez anos, adultério era crime). É inegável que há uma tolerância e que ninguém “clama por justiça”, para que “essas criminosas que praticam aborto” sejam presas, o que é o primeiro passo para a descriminalização. A condenação se restringe à esfera religiosa, a qual verdadeiramente ela pertence (mas não desde sempre, como nos conta Fábio Konder Comparato, aqui – LEIAM!).
Por tudo isso, minha indignação com a repulsa que percebo nos meus interlocutores, ao declarar meu voto. É deplorável que uma pessoa que, em todos os debates, tem se mostrado a mais preparada, além de ter uma conduta pública ilibada, tenha uma rejeição maior que a de certos candidatos com histórico de desvios éticos e incoerência. Jordy nunca foi incoerente (a foto em que ele segurava uma bandeira contra o aborto era montagem, já ficou provado). Trabalhar para garantir uma vida digna às crianças, adolescentes e mulheres não é nem um pouco incompatível com a ausência de convicções religiosas sobre em que momento um embrião passa a ter, efetivamente, uma vida. Muito pelo contrário: as pessoas com maior sensibilidade social normalmente são as que mais defendem a liberdade dos indivíduos sobre seu próprio corpo e sua sexualidade. Incoerência é ser absolutamente contrário ao aborto e um fervoroso defensor da pena de morte, como vejo muitos por aí. Você, por um acaso, não é um deles?

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sobre vitória e humildade

Tudo começou com uma preocupação estética bem comezinha, mas faltava disposição para voltar a exercícios chatos e repetitivos. O que me daria prazer de fazer? Estranhamente, pensei nela. Nela, que eu abandonei há exatos dez anos. E, de repente, não me vinha mais nada na cabeça a não ser voltar à natação. Por anos, foi a última coisa que eu quis fazer na vida, porque também me remetia à pressão. Só que o tempo passou e, há alguns meses, ensaiei um treino aqui e acolá. E como foi bom! Como dá para pensar na vida e limpar a mente contando azulejos!
Decidir retornar, porque, muito além de questões estéticas, é inegável o bem estar que uma atividade física proporciona. Mas não só isso. E é aqui que começamos a falar sobre o título da postagem.
Integrei a equipe do Clube do Remo e a seleção paraense por oito e cinco anos, respectivamente. Parei com dezessete anos, supostamente para estudar para o vestibular, mas essa foi uma desculpa conveniente, porque eu simplesmente não queria mais, mas não tinha coragem de dizer isso para a minha mãe, uma entusiasta da minha vida esportiva.
Dos nove aos dezessete anos, aprendi lições que nenhum adolescente aprende por aí, em tardes ociosas assistindo televisão. A mais importante delas, é que vitória só vem com esforço.
Lembro do dia em que ganhei minha primeira competição importante. Foi o Campeonato Norte/Nordeste, em São Luis. Tinha 12 anos. Foi a primeira coisa que consegui com meu próprio esforço. E que esforço! Eram dezesseis horas de treino por semana. Eu era uma criança e treinava dezesseis horas por semana porque queria ser uma campeã! E naquele dia, eu fui. A marca me levou ao topo do ranking nacional da categoria. Quando abracei minha mãe, tive vontade de chorar. Não o fiz porque era muito boba para saber que isso não me faria menos forte. Ainda lembro do nó na garganta. Naquele dia, eu aprendi sobre esforço e vitória (e sobre como se sentir o orgulho da mamãe).
Naquele mesmo dia, aprendi sobre humildade. Horas depois, eu deveria integrar a equipe de revesamento do clube. Minha equipe era bem ruim e fiz uma expressão de desânimo para o meu técnico. Tão nítida quanto a emoção da minha mãe, é a lembrança dele me dizendo "nem bem ganhaste, já vais virar estrela? vai nadar!". Eu fui e ficamos entre os últimos. E naquele dia, aprendi que não se pode ganhar sempre.
Paralelamente, eu estudava em uma escola daquelas cheias de gente que tem a certeza de ser muito especial, sem nunca ter feito nada para isso, a não ser ter nascido com um determinado sobrenome. Em ambientes assim, o que vale para sua popularidade não é o seu talento ou determinação. Todos sabemos o que é. Foi muito enriquecedor estar, simultaneamente, em um círculo em que não adiantava ter os melhores acessórios, se não houvesse um resultado. Só se destacava quem trabalhava duro.
Olhando para trás, vejo que a natação ajudou a formar o meu caráter. Perdi muito antes de ganhar. E perdi outras tantas depois. Subi muitas vezes no lugar mais baixo do pódio e tive que dar parabéns para aquela que carregava no peito o que eu queria para mim (e que eu tinha lutado de verdade para conseguir). A mais dolorosa foi em um campeonato brasileiro juvenil, em que cheguei como favorita e terminei na quinta colocação. Eu queria morrer, mas tive que assistir de longe aquela premiação e reconhecer que aquelas pessoas simplesmente tinham feito melhor que eu. A dor do aprendizado, enfim.
Talvez o esporte seja o que de melhor possa acontecer na vida de um adolescente. Os jovens não tem muitas referências de compensação pelo esforço ou de derrotas. Nada os estimula a ter disciplina e isso não se adquire para fatores isolados. Os bons atletas geralmente são bons alunos, porque sabem que nada vem de graça, se o seu objetivo é ser o melhor.
Vencer pelo próprio esforço, aceitar as derrotas e continuar. Como alguém passa pela vida sem isso?

segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre cegueira e responsabilidades


"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
 
"É desta massa que nós somos feitos, 
 metade de indiferença e metade de ruindade."

"A cegueira também é isto, viver num mundo 
onde se tenha acabado a esperança."

"É que vocês não sabem, não o podem saber, 
a responsabilidade que é ter olhos quando ninguém mais vê."
(José Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira)

O que antes era uma obviedade, hoje parece esquecido por quase todos. Ainda assim, não deixa de ser clichê, mas vou dizê-lo: os livros mudam as pessoas. Não todos, mas Ensaio Sobre a Cegueira certamente é um deles.
Impossível ficar indiferente, reconhecendo a si próprio como um monstro em potencial. Ou apenas como humano, afinal, dentro de nós existe uma coisa que não tem nome e essa coisa é o que somos.
Não vou falar mal do período em que vivemos. A despeito do que correntemente se prega, o mundo já foi bem pior. Ainda subjugamos outros seres humanos, mas ao menos isso não é mais aprovado socialmente e, principalmente, existem muitos dispostos a se indignar e lutar contra, inclusive com um aparato institucional, como a Constituição, as leis, o Ministério Público e os organismos internacionais.
Percebe-se, entretanto, uma grande resistência das pessoas em assumir suas responsabilidades, culpando o Estado e o livre-arbítrio de cada um pelas mazelas sociais e individuais, eximindo-se totalmente. Refuto absolutamente este argumento.
É muita ingenuidade achar que a sociedade será mais justa e fraterna apenas por ação dos governantes e das instituições. Isso é ignorar um ponto básico, sobre o Estado ser um reflexo do seu povo. Jamais surgirão lideranças solidárias e preocupadas com o coletivo em uma sociedade que não tenha estas características. Ainda que surjam, serão minoria e não terão espaço para prosperar. O governo, afinal, é feito por pessoas e as pessoas são fruto, em grande parte, do ambiente em que vivem.
Especialmente em um país como o nosso, com um número absurdo de analfabetos, inclusive os funcionais, é demais esperar que cada um seja responsável por seu próprio destino. É um argumento de quem teve todas as condições de crescer, inclusive intelectualmente.
Não se pode crer que duas pessoas partindo de dois pontos tão distintos (miséria x oportunidades) cheguem a um mesmo lugar. Haverá um ou outro caso, para confirmar a regra e atiçar os que acreditam unicamente no esforço individual. Esses vitoriosos, que superam barreiras intransponíveis aos demais, serão usados, por inocência ou má-fé, para justificar a razão de não haver necessidade de políticas públicas específicas, discriminações compensatórias ou mobilização social.
Aqueles que tem uma vida confortável acreditarão que jamais foram beneficiados pelos governos e tudo o que conquistaram foi por esforço pessoal, pelo que não podem ser ainda obrigados a lutar pelos direitos dos outros. Preferem ignorar as políticas econômicas ou fiscais, por exemplo, que lhes aproveitam. Ou então, um passado claramente protecionista de homens brancos e com propriedade, que lhes permitiu nascer em um lar que dispensava certos tipos de atenção estatal.
Não há dúvidas que há mérito em ter trabalhado para conseguir realizar seus objetivos. Por vezes, isso realmente demanda uma energia tão grande que não sobra para o resto. Não se pode, contudo, deixar de reconhecer que a acomodação coletiva  e perene influencia em toda a sociedade.
Quando a elite intelectual do país, que estudou, frequentou universidades, participou de debates e, principalmente, sabe ler (e compreender o que está escrito), não enxerga o papel que deveria assumir, o de interceder por quem não tem condições de compreender plenamente e exigir seus direitos mais básicos, não há esperança. E a cegueira também é viver em um mundo onde não há esperança.
Todos se ressentem de não haver perspectiva de melhora nos investimentos públicos, na moralização da política, na eficácia do Poder Judiciário. Lamentam e repetem para si mesmos que não há nada a fazer. Se isso não é desesperança, eu não sei o que é. Se nem aqueles que teriam força política e intelectual conseguem vislumbrar uma solução, como esperar iniciativa de quem mais precisa do Estado?
Chegamos, portanto, ao ponto principal: a responsabilidade de quem consegue ver. De quem não só vê, mas repara. Essas pessoas tem a obrigação de guiar as outras e impedir que sua única meta seja chegar ao final do dia vivo, alimentado e limpo, como acontece com os cegos, na história de Saramago. Esses são os líderes e vejo muitos deles por aí, mas normalmente sendo alvo de chacota de quem crê que seus atos não terão nenhum impacto na sociedade.
Há ainda os que não conseguem ver totalmente, mas reconhecem sua cegueira parcial e buscam a sabedoria de quem enxerga. Esperam um dia poder ter a clareza do outro e, provavelmente, conseguirão.
Por fim, há os cegos. Os de nascença e os que se tornaram depois. O perigo do mundo não está nos que nasceram assim, ou seja, aqueles que, desde o primeiro dia de suas vidas, estavam fadados ao desconhecimento (para quem não entendeu a metáfora, aqueles que vivem à margem, que não tem acesso à educação e ao desenvolvimento de seu potencial intelectual, criativo e pessoal). O mal do mundo está naqueles que podem voltar a enxergar e se negam. Preferem se encastelar no seu universo, onde o que importa é chegar ao final do dia vivo, alimentado e limpo.
Quem age dessa forma não pode reclamar da insegurança, do egoísmo e da barbárie. Se ninguém vislumbra nenhuma solução para o bem comum, é absolutamente compreensível que se tente fazer o que é melhor para sua própria sobrevivência e bem-estar. Seja isso fingir que não vê o morador de rua ou apontar uma arma para um inocente, em busca de algum bem material. Afinal, lembrem-se, o objetivo não é mais ter dignidade, mas chegar ao final do dia vivo, alimentado e limpo.
Imagino que quem visite este blog não seja cego de nascença. Frequentou a escola, a universidade, viajou, tem acesso à informação e possivelmente vive com algum conforto. Faz parte, ao menos em tese, da tal elite intelectual, que aqui utilizo como sinônimo de escolarizado. Assim, tem a oportunidade de refletir em que grupo está: nos que reparam, nos que conseguem ver ou nos cegos por opção. Em todos os casos, pode mudar de posição, pois lhe foram dados os instrumentos, o que não ocorreu com os que nasceram cegos, a quem, afinal, não se pode imputar a maior parte do insucesso da nossa sociedade, como constantemente se tenta fazer.

 

domingo, 11 de dezembro de 2011

Orgulho de ser paraense?

Acabou o plebiscito e a imensa maioria da população do estado optou pelo não desmembramento do Pará. Os dados sobre a votação por região indicam que cerca de 90% dos moradores do tal "Pará remanescente" votaram pelo NÂO e a mesma proporção dos habitantes das outras regiões votou no SIM. Por questões numéricas, o primeiro venceu. Tudo certo, democracia é isso e é muito justo que a população inteira tenha sido consultada.
O que não está certo é, neste momento, ter uma comemoração na Doca e em vários outros pontos da cidade. Enquanto isso, cerca de duas milhões de pessoas estão desoladas porque tinham esperança que o SIM lhes conferisse uma perspectiva melhor, um futuro mais digno, um governo mais presente.
Veja bem, não há consenso sobre esta ser uma solução eficaz, mas isso não é nem um pouco relevante. O importante é que nossos irmãos, brasileiros e paraenses (por nascimento ou opção), tinham esperança e acreditavam nisso. Não há necessidade de concordar, mas há obrigação moral de ser solidário.
Essa comemoração é mais uma prova de que a população da capital continua não se importando com o futuro das pessoas que moram no interior. Este era o momento de segurar na mão e dizer que vamos caminhar juntos e que seremos um povo unido. Mas não. Preferimos deixar claro que não entendemos o desejo deles. Mais uma vez.
No último programa do SIM, apareceram moradores de cidades abandonadas, em casas abandonadas, segurando cartazes pedindo que Belém olhasse por eles. Ainda que você não acredite nos políticos locais e entenda que unidos cresceremos, não é possível que não tenha se sensibilizado. "Belém, olhe por nós". Não foram os políticos que pediram. Foram as pessoas. Ainda que elas tenham sido ludibriadas por uma elite com interesses escusos, que as fez acreditar que dividir o estado resolveria os problemas, elas acreditavam. É uma desumanidade apontar o dedo para elas e dizer: Perdeu! Rá!
Não sei como o belenense não percebeu que não se tratava de uma questão de ganhar e perder. Francamente. É muita falta de sensibilidade, solidariedade e, principalmente, senso crítico. Nas disputas, sempre um ganha e outro perde. Nas negociações, existe a possibilidade de ambos ganharem. Estou certa que o que estava em jogo não era uma disputa.
Alguns dizem que o plebiscito serviu para recuperar o orgulho de ser paraense. Pode ser. Ou não. Particularmente, acho que isso vai passar mais rápido do que veio e vamos voltar a implorar por reconhecimento do sul maravilha. Prova disso é a imagem ao lado, que circulou nas redes sociais nas últimas semanas.
É claro que gosto não se discute, mas acho pouco provável que alguém considere que a paisagem retratada oferece uma linda vista, como diz a legenda. O que eu vejo, além de um canal e um pedacinho de rio, são prédios, muitos prédios, que, em algumas mentes distorcidas, significam civilização. Para mim, a foto grita: Ei, tá vendo? Nós temos prédios! Prédios!
Se a intenção do autor da legenda era mostrar que Belém tem água, além de mato, e mostrar verdadeiro orgulho de suas águas e suas árvores, ele deveria ter colocado uma foto como esta outra. 
Para quem não sabe, isto também é Belém. Na Ilha do Combu. Poderia ser Outeiro, Ilha das Onças, etc. 
Lamento muito não ter batido uma foto, no meu último passeio pela orla, de uma placa que dizia: Cuidado, grande fluxo de canoas. Afinal, esse rio é a rua deles, que agora é dividido com lanchas e jet skis muito caros.
A exposição desta foto - esta sim, uma paisagem linda de se ver da janela - iria contra o objetivo de quem divulgou a primeira imagem. Perpetuaria a opinião dos sulistas de que aqui só tem índio. E não tem ofensa maior a um paraense do que dizer que aqui só tem índio!
Não consigo concluir outra coisa deste medo todo de ser confundindo com um indígena do que a opinião de que eles são seres inferiores. Não há qualquer razoabilidade em supor que alguém se ofenderia tanto com uma idéia, ainda que ela esteja equivocada, se a idéia em questão não for considerada pelo ofendido algo que lhe denigra a imagem.
Em pouco tempo, estaremos negando novamente tudo o que faz parte da nossa cultura, salvo o açaí, o guaraná (que agora são internacionais!), o tucupi e a maniçoba. Ah, tem o Círio também, a nossa única maravilha que não é de comer. Os ribeirinhos, os índios, as canoas, tudo isso será desejável que permaneça bem longe. No Tapajós, de preferência. Continuaremos dizendo que temos vergonha alheia quando nossa gente aparecer na televisão. Reclamaremos que os programas só mostram a gente feia de Belém. Cara de índio, afinal.
A população de Belém tem necessidade de provar o que é civilizada, mas faz isso com ações bem erradas. A brutalidade no trânsito, o desrespeito ao horário de colocar o lixo para fora, o egoísmo, a falta de educação e o culto a tudo o que vem de fora são bem conhecidos. Acabamos de incluir no nosso rol de incivilidades a perversidade. Pelo menos é isso que eu acho de quem comemora a desesperança alheia.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Um Pará grande para quem?

O plebiscito é daqui a poucos dias e eu ainda não tenho certeza sobre o meu voto. Tive a ilusão que a campanha eleitoral poderia me ajudar, mas é claro que isso não aconteceu. Musiquinhas cantadas por artistas locais não auxiliam em nada. Depoimentos emocionados de atores e jogadores de futebol, tampouco. Não tenho, infelizmente, capacidade técnica para analisar os números e saber quem está mentindo sobre as perspectivas econômicas e sociais.
A verdade é que isso não seria necessário se os governos tivessem dado atenção homogênea a todas as regiões, como deveria ser. Então, tem razão os que dizem que a divisão não resolve nada, que a atenção do governo estadual seria suficiente, mas não há nenhum motivo para acreditar que isso vai acontecer agora, depois de tanto tempo de descaso. Nenhum.
Os belenenses, particularmente, tem feito um papel bem ridículo nesse plebiscito. Discursos vazios sobre querer manter o Pará grande são pura hipocrisia. Quase 100% da população da capital faz o sinal da cruz diante da possibilidade de ir morar em Marabá, por exemplo (falo isso por experiência própria; eu já estive nessa situação e me apeguei aos santos que eu nem acredito!).
Querem manter o "Pará grande" simplesmente pelos recursos que vem de lá, não por cogitarem ir até tão longe. E tem a cara de pau de chamar brasileiros de forasteiros. Ora, se pessoas de outros estados do país ocuparam (e desenvolveram) a região, foi porque as pessoas da capital sempre tiveram resistência a trabalhar lá. Ouvi de um executivo cearense a dificuldade que é levar gente de Belém para a empresa, mesmo com os altos salários. Muito mais fácil convidar paulistas, mineiros, goianos, etc. Não são forasteiros, eles tem todo o direito de estar aqui e lutar por tudo o que a Constituição e as leis lhes garantem, inclusive o de motivar a divisão. Dizer o contrário é se equiparar a um paulista estúpido que quer afogar nordestinos.
O que eu sempre achei é que, independente de ter dúvidas sobre a divisão ser realmente eficaz, o pleito da população (inclusive dos "forasteiros") é legítimo. Se eles geram riquezas que não são nem de longe aplicadas proporcionalmente no local, tem todo o direito de se indignar e exigir autonomia para gerenciar os próprios recursos e, talvez, sair do estado deplorável em que vivem.
Outra grande bobagem é argumentar que os defensores da divisão chegaram pobres ao Pará, enriqueceram e agora querem levar o que é nosso. Não é nosso. Sinceramente, é mais deles do que nosso. Eles moram lá, empregam gente lá, desenvolvem a região e tem dificuldades de trabalhar porque não tem infraestrutura. Não tem estradas, pessoal qualificado, órgãos estatais bem equipados. Tudo isso prejudica os negócios e, consequentemente, a população toda.
A minha maior dúvida diz respeito às pessoas que governariam os outros Estados. Depois de ouvir o Deputado Lira Maia dizer que os governos estaduais trabalhariam em acampamentos, ficou muito claro (mais claro ainda, quero dizer) que as pessoas à frente disso não são sérias.
Eles não criaram essa vontade nas pessoas. O desejo da divisão é do povo e eles, como representantes deste povo, encamparam a idéia, o que é ótimo. O problema é, como sempre, que essa defesa não se deu pelos motivos corretos, que é o interesse da população. Não se pode dizer, contudo, que os políticos de lá são menos sérios dos que os daqui. Sinto muito. De todo modo, talvez este não seja o momento. O Brasil ainda não atingiu um nível de moralidade suficiente para uma empreitada dessas.
Repito, por fim, que não tenho certeza que a divisão do estado melhoraria a vida dos moradores desses locais. O que não admito é belenense se fazendo de desentendido, não enxergando que, por trás de políticos fanfarrões, existe uma população que deseja receber benefícios proporcionais à sua colaboração com a receita do estado. Não aceito que se defenda com tanta veemência um "Pará grande", apenas para não perder as suas riquezas, enquanto as milhões de pessoas que as produzem não vêem a cor do dinheiro. Gostaria de ver gente defendendo a integridade do território não pode medo de virar um "Parázinho", mas por acreditar que isso é o melhor para toda a população, principalmente a que vive em piores condições.