quinta-feira, 13 de agosto de 2015

Inimigas

- Amiga, ela não chega aos teus pés!

É com frases dessa natureza que as mulheres mais bem intencionadas se referem à ex do nosso atual ou à atual do nosso ex. Porque parece muito óbvio na cabeça de uma mulher que a ex do nosso atual ou a atual do nosso ex é nossa inimiga. Alguém que às vezes nós nunca nem vimos, que poucos dias antes não sabíamos sequer que existia, que teve a infeliz ideia de se encantar por aquele cara provavelmente encantador pelo qual nós também nos apaixonamos.
É um mecanismo estranho esse, em que somos levadas a desqualificar as pessoas que passaram pela vida do nosso atual e as que passaram e passarão pela vida do nosso ex. Porque, sabem?, aquele cara nos escolheu e desqualificar todas as outras escolhas dele é insinuar que ele não é lá muito bom nessa coisa de escolher.
Mas é assim que a roda gira no mundo das mulheres, que foram ensinadas pela sociedade (e também um pouco pela biologia, vá lá) que precisavam competir entre si por aqueles que consideravam o melhor exemplar masculino para lhes prover e proteger. E, a despeito de não precisarmos mais de provedores e protetores, seguimos com essa lógica insana de não gostar de alguém que não conhecemos porque temos gostos em comum. Talvez sejamos até parecidas em coisas essenciais, por isso despertamos a afeição da mesma pessoa.
O cruel dessa cultura é que todas sempre perdem, porque não existe uma pessoa melhor ou pior que a outra em tudo. Então, sua "rival" terá coisas melhores e piores que você, não tem jeito. E ambas tendem a se sentir desvalorizadas nos quesitos em que se consideram perdedoras, não importa o quanto as amigas tentem, "bondosamente", jogar a outra pra baixo.
É tempo de desconstruir velhos padrões de comportamento e reinventar a sociedade, reinventar a nós mesmas, afastando tudo o que não faz sentido, tudo o que gera sofrimento e raiva gratuitas. Desconstruir a rivalidade feminina é uma bandeira antiga do feminismo e um excelente começo de libertação das mulheres.

domingo, 5 de julho de 2015

Sobre estar só

Dizer que antes de entrarmos em um relacionamento devemos ser felizes na nossa própria companhia é daqueles clichêzões sobre o amor. Parece uma frase vazia para justificar a solidão, mas, se desenvolvermos o raciocínio, ela é valiosa.
Estar sozinho é o estado originário, digamos assim. Não podemos sempre garantir que estaremos com outra pessoa, então, o nosso "eu" é o que temos como segurança. A forma como nos sentimos quando estamos sós define a qualidade de todas as nossas relações (românticas, familiares ou de amizade). Se estar sozinho é algo tedioso ou deprimente, qualquer companhia melhor do que isso basta, o que não significa, por óbvio, que seja uma boa companhia. Por outro lado, aquele que consegue preencher com riqueza seus momentos solitários tem um parâmetro de qualidade muito maior, só aceitando uma companhia que lhe dê mais prazer que seus livros, filmes, músicas e reflexões. 
A linguagem não-verbal é poderosa. É o que Osho fala sobre se mover como mestre e não como mendigo. As pessoas com quem nos relacionamos percebem quem está mendigando carinho e companhia. E não é por mal que elas dão esmolas do seu amor, mas há a tendência humana de só se esforçar na medida em que é demandado. E como aceitamos o amor que achamos que merecemos, quem está carente aceita qualquer coisa, sem muito critério.
Torne-se um mestre, se quiser bons parceiros e amigos, porque mestres não se sentem atraídos por mendigos, que lhes privam de uma gostosa solidão, mas não lhes oferecem companhia.

Sobre tornar–se irresponsável

Das coisas lindas que os 30 anos me trouxeram: os outros estão me achando cada vez mais irresponsável. E eu estou achando ótimo.
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"Quando você começa a ficar responsável em relação a si mesmo, começa a abandonar suas máscaras. Os outros começam a se sentir perturbados, porque eles sempre tiveram expectativas e você satisfazia essas exigências. Agora eles sentem que você está ficando irresponsável.
Quando os outros dizem que você está sendo irresponsável, estão simplesmente dizendo que você está saindo do controle deles. Você está ficando mais livre. Para condenar o seu comportamento, eles o chamam de irresponsável.
Na verdade, sua liberdade está crescendo e você está se tornando responsável. Responsabilidade significa a habilidade de responder. Ela não é uma obrigação que precisa ser satisfeita no sentido comum. Ela é capacidade de responder, sensibilidade.
Porém, quanto mais sensível você se tornar, mais descobrirá que muitas pessoas acham que você está ficando irresponsável – e você precisa aceitar isso -, porque os interesses delas, os investimentos delas não serão satisfeitos. Muitas vezes você não satisfará as suas expectativas, mas ninguém está aqui para satisfazer as expectativas dos outros.
A responsabilidade básica é para com você mesmo. Assim, um meditador primeiro se torna muito egoísta. Porém, mais tarde, quando ele ficar mais centrado, mais enraizado em seu próprio ser, a energia começará a transbordar. Mas isso não é uma obrigação, não é que a pessoa precise fazê-lo. Ela adora fazê-lo; trata-se de um compartilhar." (Osho)