sexta-feira, 26 de setembro de 2014

Deixa ser como será



"Nem eu, nem tu, nem ela, nem qualquer outra pessoa desta história
 poderia responder mais, tão certo é que o destino, como todos os
dramaturgos, não anuncia as peripécias nem o desfecho. Eles chegam
seu tempo, até que o pano cai, apagam-se as luzes, e os espectadores
vão dormir. Nesse gênero há porventura alguma cousa que reformar,
e eu proporia, como ensaio, que as peças começassem pelo fim. Otelo
mataria a si e a Desdêmona no primeiro ato, os três seguintes seriam
dados à ação lenta e decrescente do ciúme, e o último ficaria só com
as cenas iniciais da ameaça dos turcos, as explicações de Otelo e
Desdêmona, e o bom conselho do fino lago:  'Mete dinheiro na bolsa'.
Desta maneira, o espectador, por um lado, acharia no teatro a charada
habitual que os periódicos lhe dão, por que os últimos atos explicam o
desfecho do primeiro, espécie de conceito, e, por outro lado, ia para a
cama com uma boa impressão de ternura e de amor:

'Ela amou o que me afligira,
Eu amei a piedade dela.'"
(Dom Casmurro, Machado de Assis)


Quem chega para ficar? Quem não se demora? Que encontros ocasionais poderão virar belas amizades, romances, parcerias? Seria bom saber das histórias pelo fim?
O trecho acima trata da primeira vez que Capitu viu Escobar. Ocorreu de forma tão rápida e desimportante que Bentinho, coitado, não poderia imaginar o que viria. E se soubesse de antemão, teria renunciado à tudo o que viveu com o amor de sua vida?
Nos versos de Amarante, "e se eu fosse o primeiro a prever e poder desistir do que for dar errado, quem então agora eu seria?". Se nossas experiências (boas e ruins) formam a nossa personalidade, talvez seja melhor não saber o que esperar. Por medo da dor, certamente dispensaríamos um bocado de coisas boas. O que sobraria de nós? Um vazio.

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