quarta-feira, 1 de maio de 2013

Desajustados

"Aqui estão os loucos. Os desajustados. Os rebeldes. 
Os criadores de caso.
Os pinos redondos nos buracos quadrados.
Aqueles que vêem as coisas de forma diferente.
Eles não curtem regras. E não respeitam o status quo.
Você pode citá-los, discordar deles, glorificá-los ou caluniá-los.
Mas a única coisa que você não pode fazer é ignorá-los.
Porque eles mudam as coisas. Empurram a raça humana para a frente.
E, enquanto alguns os vêem como loucos, nós os vemos como geniais.
Porque as pessoas loucas o bastante para 
acreditar que podem mudar o mundo, são as que o mudam."
(Jack Kerouac)


Ainda me assusto com padrões e com o quanto as pessoas os tomam como verdades absolutas. Uma análise rasteira das últimas décadas é suficiente para concluir que eles simplesmente se transformam totalmente. Totalmente.
Há uns dias, em uma conversa sobre a viabilidade jurídica dos relacionamentos poliafetivos, um conhecido se exaltou um pouco, dizendo que certas coisas não mudariam jamais, que a família era uma instituição secular, que nunca tinha passado por uma alteração substancial. O argumento não durou dez segundos, só o tempo dos demais se recuperarem do susto que a afirmação provocou. A família é uma instituição secular, que mudou quase que completamente nos últimos cinquenta anos! Na minha opinião, para muito melhor, afinal, o homem não é mais dono da mulher e dos filhos, não é mais aquele que não pode ser contestado, que pode violentar. O patriarcado está nos seus suspiros finais. Qualquer um se casa e se divorcia quantas vezes quiser. Ou evita o desgaste e nem se casa. E, em todas essas mudanças, sempre surgiram os cavaleiros do apocalipse, anunciando o fim da família (e do mundo, consequentemente).
Em outra ocasião, uma vizinha perguntou se eu tinha filhos. Respondi que não e ela lamentou. Disse que conseguia imaginar duas criaturinhas lindas correndo por aí. Chamou-me atenção o duas. Porque duas? Porque esse é o padrão atual. Quando um casal não tem filhos, um exército de chatos questiona quando eles pretendem ter. Ao nascer o primeiro, começam as cobranças para o próximo. E, ainda na gravidez do segundo, um montão de gente sugere que está na hora de parar. 
Que mundo é esse em que terceiros se sentem tão à vontade para determinar que alguém tem que ter filhos e, de preferências, doisÉ o mesmo mundo que diz que as mulheres devem ser mais jovens que seus parceiros, que devem casar entre 26 e 28, enquanto eles devem fazê-lo entre 28 e 30 anos. Com aproximadamente dois anos de casados, é bom que comecem a planejar os filhos. Dois, como já aprendemos. Convém que esses relacionamentos sejam heterossexuais e monogâmicos, ao menos nas aparências (definir um relacionamento aberto de comum acordo não pode, mas trair escondidinho não tem problema, se o adúltero for homem, é claro).
Quem não é heterossexual, não quer casar casar e/ou ter filhos, ou faz isso antes/depois do que as pessoas esperavam, é considerado um desajustado. Tem que ter muito equilíbrio e maturidade para viver bem consigo mesmo quando se está fora dos padrões, especialmente para as mulheres, para quem não existe a possibilidade de não casar por opção, mas sim porque algum homem não a quis.
Deveria ser óbvio que não podem existir padrões para as relações pessoais. As coisas não acontecem ao mesmo tempo pra todo mundo e nem da mesma forma. Imposições de comportamento só fazem com que muitos tomem decisões sérias para não frustrarem as expectativas alheias, o que não tem como dar certo.
Enquanto o mundo caminha para uma maior flexibilidade nos relacionamentos, é natural que haja uma reação dos que têm pavor do diferente. Na internet, surgiu a definição perfeita para esses tipos: os cagadores de regras, sempre cheios de "isso pode", "isso não pode". Não seja um.
Sempre que for justificar alguma coisa com "isso não é normal" ou "todo mundo faz assim", lembre-se do quanto os cagadores de regras do passado soam ridículos hoje em dia. Tenha em mente o absurdo que é alguém ter sido contrário ao casamento interracial, ao divórcio, ao trabalho feminino, ao sexo fora do casamento, às uniões estáveis. Algumas dessas coisas eram combatidas com veemência há menos de dez anos.
É tempo de decidir de que lado você quer estar no futuro próximo: dos desajustados ou dos ultrapassados?

Um comentário:

Yúdice Andrade disse...

Eu ainda não havia dito como este teu texto é bom. Comunica com perfeição aquilo que muita gente precisa ouvir para, quem sabe, um dia, entender.