quarta-feira, 3 de outubro de 2012

A hipocrisia definindo as eleições. De novo.


No início do ano, havia um consenso sobre quem seria um dos candidatos mais fortes à Prefeitura de Belém. Com a maior votação do Estado nas eleições para Deputado Federal, participação ativa na CPI estadual da Pedofilia (com resultados concretos, dentro dos limites da CPI) e, no primeiro ano de mandato no Congresso Nacional, escolhido Presidente da CPI do Tráfico de Pessoas, Arnaldo Jordy era um dos nomes com maior aprovação. Junte-se a isso a ausência de escândalos, em muitos anos de vida pública, e uma atuação sempre expressiva, com proposição de projetos, requerimentos, emendas, etc.
Em resumo, não havia nada que depusesse contra ele. Ainda que alguns não reconhecessem o bom trabalho nos cargos legislativos que ocupou, ninguém lhe tirava o mérito de ser sério e confiável.
O que ocorreu neste ano, todos sabem: o jornal de propriedade daquele que é sinônimo de corrupção no Brasil inteiro, e que tem um parente na disputa, divulgou o áudio de uma conversa de Jordy com a namorada, em que ele manifestava seu desejo de não ter a criança que ela estava esperando. A partir daí, houve uma queda vertiginosa, segundo os nada confiáveis institutos de pesquisa.
Independente das pesquisas, é perceptível a reação de rejeição de muitas pessoas, quando digo em quem irei votar. É como se eu estivesse votando em um pária e sempre tenho que me explicar. Fico indignada. Não porque as pessoas não concordem comigo e queiram votar em outro candidato, mas com o moralismo e a hipocrisia. Principalmente, com o fato de a eleição para escolher quem vai governar esta cidade abandonada ser decidida por uma questão privada e não pública (como, aliás, quase ocorreu na disputa presidencial).
Respeito quem é veementemente contra a legalização do aborto. Não são só questões religiosas que embasam essa opinião, apesar de predominantes. Há argumentos muito sensatos, que fazem com que eu a considere legítima, em um estado laico (ou seja, não considero opiniões religiosas legítimas, para fins de elaboração da legislação e de direcionamento das políticas públicas).
O que me espanta é a repulsa de pessoas que entendem o aborto como uma opção válida de controle de natalidade, cuja decisão, em princípio, cabe à mulher. Elas costumam condenar o candidato por ele ter “forçado” a namorada a fazer um aborto. Calma, tigre! Não foi bem assim! Quem ouviu o áudio percebe muito bem que há um temperamento um pouco mais exaltado, comum a qualquer um que é surpreendido com uma gravidez indesejada (e, estranhamente - dada a facilidade da prevenção - todo mundo já conviveu com alguém nessa situação). Não há, entretanto, uma violência. Dizer que a decisão é exclusiva da mulher é uma barbaridade tão grande quanto dizer que “o filho é da mulher”.
Em última análise, a escolha será dela, que tem o livre arbítrio de tomar ou não uma medida abortiva, mas isso não significa, em hipótese alguma, que a opinião do pai deva ser simplesmente descartada. No mundo ideal, ele arcará com as mesmas conseqüências que ela (salvo as físicas, por óbvio), após o nascimento do bebê, com a necessidade de provê-lo financeira e emocionalmente. Não pode ser simplesmente retirado o direito do homem de dizer “sinceramente, eu não desejo esse filho”. Assim como isso não o exime das responsabilidades que surgirem após o nascimento da criança.
Não consigo compreender quem, sendo a favor da legalização do aborto, tem tanta rejeição ao candidato. Ele não foi um crápula. Ele manifestou uma vontade, uma opinião e, ao fim, respeitou a decisão da mulher, já que a criança nasceu (e não foi por causa da repercussão do áudio, pois, quando da divulgação, a gravidez já estava em estágio avançado).
Pra ser sincera, também não consigo entender a rejeição de quem é contra a legalização do aborto. Sem hipocrisia: por ano, 200 mil abortos são realizados no Brasil, segundo a ONU! É muito provável que todo mundo conheça alguém que fez um e, inclusive, saiba disso. E nem por isso essas pessoas são consideradas párias da sociedade. Elas não perdem a confiança dos outros, não são presas, não são demitidas dos seus empregos.
Dizer que o candidato incentivou um “crime” é uma realidade bem flexível. Sim, a conduta está tipificada no Código Penal, mas é amplamente tolerada. As leis não acompanham instantaneamente a mudança de pensamento da sociedade (basta lembrar que, há menos de dez anos, adultério era crime). É inegável que há uma tolerância e que ninguém “clama por justiça”, para que “essas criminosas que praticam aborto” sejam presas, o que é o primeiro passo para a descriminalização. A condenação se restringe à esfera religiosa, a qual verdadeiramente ela pertence (mas não desde sempre, como nos conta Fábio Konder Comparato, aqui – LEIAM!).
Por tudo isso, minha indignação com a repulsa que percebo nos meus interlocutores, ao declarar meu voto. É deplorável que uma pessoa que, em todos os debates, tem se mostrado a mais preparada, além de ter uma conduta pública ilibada, tenha uma rejeição maior que a de certos candidatos com histórico de desvios éticos e incoerência. Jordy nunca foi incoerente (a foto em que ele segurava uma bandeira contra o aborto era montagem, já ficou provado). Trabalhar para garantir uma vida digna às crianças, adolescentes e mulheres não é nem um pouco incompatível com a ausência de convicções religiosas sobre em que momento um embrião passa a ter, efetivamente, uma vida. Muito pelo contrário: as pessoas com maior sensibilidade social normalmente são as que mais defendem a liberdade dos indivíduos sobre seu próprio corpo e sua sexualidade. Incoerência é ser absolutamente contrário ao aborto e um fervoroso defensor da pena de morte, como vejo muitos por aí. Você, por um acaso, não é um deles?