sexta-feira, 4 de maio de 2012

Sobre vitória e humildade

Tudo começou com uma preocupação estética bem comezinha, mas faltava disposição para voltar a exercícios chatos e repetitivos. O que me daria prazer de fazer? Estranhamente, pensei nela. Nela, que eu abandonei há exatos dez anos. E, de repente, não me vinha mais nada na cabeça a não ser voltar à natação. Por anos, foi a última coisa que eu quis fazer na vida, porque também me remetia à pressão. Só que o tempo passou e, há alguns meses, ensaiei um treino aqui e acolá. E como foi bom! Como dá para pensar na vida e limpar a mente contando azulejos!
Decidir retornar, porque, muito além de questões estéticas, é inegável o bem estar que uma atividade física proporciona. Mas não só isso. E é aqui que começamos a falar sobre o título da postagem.
Integrei a equipe do Clube do Remo e a seleção paraense por oito e cinco anos, respectivamente. Parei com dezessete anos, supostamente para estudar para o vestibular, mas essa foi uma desculpa conveniente, porque eu simplesmente não queria mais, mas não tinha coragem de dizer isso para a minha mãe, uma entusiasta da minha vida esportiva.
Dos nove aos dezessete anos, aprendi lições que nenhum adolescente aprende por aí, em tardes ociosas assistindo televisão. A mais importante delas, é que vitória só vem com esforço.
Lembro do dia em que ganhei minha primeira competição importante. Foi o Campeonato Norte/Nordeste, em São Luis. Tinha 12 anos. Foi a primeira coisa que consegui com meu próprio esforço. E que esforço! Eram dezesseis horas de treino por semana. Eu era uma criança e treinava dezesseis horas por semana porque queria ser uma campeã! E naquele dia, eu fui. A marca me levou ao topo do ranking nacional da categoria. Quando abracei minha mãe, tive vontade de chorar. Não o fiz porque era muito boba para saber que isso não me faria menos forte. Ainda lembro do nó na garganta. Naquele dia, eu aprendi sobre esforço e vitória (e sobre como se sentir o orgulho da mamãe).
Naquele mesmo dia, aprendi sobre humildade. Horas depois, eu deveria integrar a equipe de revesamento do clube. Minha equipe era bem ruim e fiz uma expressão de desânimo para o meu técnico. Tão nítida quanto a emoção da minha mãe, é a lembrança dele me dizendo "nem bem ganhaste, já vais virar estrela? vai nadar!". Eu fui e ficamos entre os últimos. E naquele dia, aprendi que não se pode ganhar sempre.
Paralelamente, eu estudava em uma escola daquelas cheias de gente que tem a certeza de ser muito especial, sem nunca ter feito nada para isso, a não ser ter nascido com um determinado sobrenome. Em ambientes assim, o que vale para sua popularidade não é o seu talento ou determinação. Todos sabemos o que é. Foi muito enriquecedor estar, simultaneamente, em um círculo em que não adiantava ter os melhores acessórios, se não houvesse um resultado. Só se destacava quem trabalhava duro.
Olhando para trás, vejo que a natação ajudou a formar o meu caráter. Perdi muito antes de ganhar. E perdi outras tantas depois. Subi muitas vezes no lugar mais baixo do pódio e tive que dar parabéns para aquela que carregava no peito o que eu queria para mim (e que eu tinha lutado de verdade para conseguir). A mais dolorosa foi em um campeonato brasileiro juvenil, em que cheguei como favorita e terminei na quinta colocação. Eu queria morrer, mas tive que assistir de longe aquela premiação e reconhecer que aquelas pessoas simplesmente tinham feito melhor que eu. A dor do aprendizado, enfim.
Talvez o esporte seja o que de melhor possa acontecer na vida de um adolescente. Os jovens não tem muitas referências de compensação pelo esforço ou de derrotas. Nada os estimula a ter disciplina e isso não se adquire para fatores isolados. Os bons atletas geralmente são bons alunos, porque sabem que nada vem de graça, se o seu objetivo é ser o melhor.
Vencer pelo próprio esforço, aceitar as derrotas e continuar. Como alguém passa pela vida sem isso?

4 comentários:

André Coelho disse...

Acho que é a melhor de todas as postagens publicadas até agora. Texto feito sob medida para trair a emoção das lembranças e levar a importância da mensagem. Perfeito! Gostei muito da leitura.

caio disse...

Nossa, passei pelo Remo durante esse teu período. Mas cheguei no máximo na pré-equipe, haha. Como não era algo que eu gostava na época, acabei não despertando ambição, mesmo chegando a treinar com o Ferreira.

Cheguei a voltar lá ano retrasado. Já me era uma coisa mais agradável... mas, ao contrário de você, preferi ir para a academia.

Quanto ao efeito educador do esporte: principalmente quanto à humildade, penso ser algo tão forte que pode ensinar até quem observa de longe, em vez de propriamente praticar. Palavras de quem na infância torceu para dois times que sofreram nos anos 90... pratico atualmente rúgbi e ela é um elemento bastante presente entre todos os jogadores, apesar da aparente violência. É um esporte que só teria valores bons a acrescentar se disseminado nas escolas.

Belíssimo texto teu, como de hábito. Parabéns!

Edyr Augusto Proença disse...

Muito lindo, Luiza

toniachalu disse...

O mais importante: não há nenhuma palavra hipócrita nesse texto. Tu realmente é uma pessoa aprendeu a ser disciplinada e humilde. Admiro muito essa parte da tua história de vida. Eu já sabia dela pelos teus relatos, mas não com tantos detalhes.
Tenta escrever um pouco mais e movimentar o blog. Sinto saudade de vir aqui todo dia. Tônia