quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Um Pará grande para quem?

O plebiscito é daqui a poucos dias e eu ainda não tenho certeza sobre o meu voto. Tive a ilusão que a campanha eleitoral poderia me ajudar, mas é claro que isso não aconteceu. Musiquinhas cantadas por artistas locais não auxiliam em nada. Depoimentos emocionados de atores e jogadores de futebol, tampouco. Não tenho, infelizmente, capacidade técnica para analisar os números e saber quem está mentindo sobre as perspectivas econômicas e sociais.
A verdade é que isso não seria necessário se os governos tivessem dado atenção homogênea a todas as regiões, como deveria ser. Então, tem razão os que dizem que a divisão não resolve nada, que a atenção do governo estadual seria suficiente, mas não há nenhum motivo para acreditar que isso vai acontecer agora, depois de tanto tempo de descaso. Nenhum.
Os belenenses, particularmente, tem feito um papel bem ridículo nesse plebiscito. Discursos vazios sobre querer manter o Pará grande são pura hipocrisia. Quase 100% da população da capital faz o sinal da cruz diante da possibilidade de ir morar em Marabá, por exemplo (falo isso por experiência própria; eu já estive nessa situação e me apeguei aos santos que eu nem acredito!).
Querem manter o "Pará grande" simplesmente pelos recursos que vem de lá, não por cogitarem ir até tão longe. E tem a cara de pau de chamar brasileiros de forasteiros. Ora, se pessoas de outros estados do país ocuparam (e desenvolveram) a região, foi porque as pessoas da capital sempre tiveram resistência a trabalhar lá. Ouvi de um executivo cearense a dificuldade que é levar gente de Belém para a empresa, mesmo com os altos salários. Muito mais fácil convidar paulistas, mineiros, goianos, etc. Não são forasteiros, eles tem todo o direito de estar aqui e lutar por tudo o que a Constituição e as leis lhes garantem, inclusive o de motivar a divisão. Dizer o contrário é se equiparar a um paulista estúpido que quer afogar nordestinos.
O que eu sempre achei é que, independente de ter dúvidas sobre a divisão ser realmente eficaz, o pleito da população (inclusive dos "forasteiros") é legítimo. Se eles geram riquezas que não são nem de longe aplicadas proporcionalmente no local, tem todo o direito de se indignar e exigir autonomia para gerenciar os próprios recursos e, talvez, sair do estado deplorável em que vivem.
Outra grande bobagem é argumentar que os defensores da divisão chegaram pobres ao Pará, enriqueceram e agora querem levar o que é nosso. Não é nosso. Sinceramente, é mais deles do que nosso. Eles moram lá, empregam gente lá, desenvolvem a região e tem dificuldades de trabalhar porque não tem infraestrutura. Não tem estradas, pessoal qualificado, órgãos estatais bem equipados. Tudo isso prejudica os negócios e, consequentemente, a população toda.
A minha maior dúvida diz respeito às pessoas que governariam os outros Estados. Depois de ouvir o Deputado Lira Maia dizer que os governos estaduais trabalhariam em acampamentos, ficou muito claro (mais claro ainda, quero dizer) que as pessoas à frente disso não são sérias.
Eles não criaram essa vontade nas pessoas. O desejo da divisão é do povo e eles, como representantes deste povo, encamparam a idéia, o que é ótimo. O problema é, como sempre, que essa defesa não se deu pelos motivos corretos, que é o interesse da população. Não se pode dizer, contudo, que os políticos de lá são menos sérios dos que os daqui. Sinto muito. De todo modo, talvez este não seja o momento. O Brasil ainda não atingiu um nível de moralidade suficiente para uma empreitada dessas.
Repito, por fim, que não tenho certeza que a divisão do estado melhoraria a vida dos moradores desses locais. O que não admito é belenense se fazendo de desentendido, não enxergando que, por trás de políticos fanfarrões, existe uma população que deseja receber benefícios proporcionais à sua colaboração com a receita do estado. Não aceito que se defenda com tanta veemência um "Pará grande", apenas para não perder as suas riquezas, enquanto as milhões de pessoas que as produzem não vêem a cor do dinheiro. Gostaria de ver gente defendendo a integridade do território não pode medo de virar um "Parázinho", mas por acreditar que isso é o melhor para toda a população, principalmente a que vive em piores condições.

3 comentários:

André Coelho disse...

Muito boa a sua postagem. Tenho muitas das mesmas preocupações (e revoltas) que você. Fico receoso de que todos esses anos eu tenha sido indiferente e conivente com uma política de simples exploração parasitária dos nossos vizinhos do interior. Por isso, acho que eles têm razão de reclamar e reivindicar coisa melhor. Penso também que, a médio prazo, haveria capitais de Estado nesses lugares, com sedes da Polícia Federal, Universidades Federais e Estaduais, Hospitais Estaduais e Metropolitanos, Centrais Sindicais, estruturas de serviços e de atendimentos etc. São essas as coisas que me deixam em dúvida.

Yúdice Andrade disse...

Mais uma vez, ratifico as tuas palavras - e fico muito feliz de vê-las novamente. De fato, no final das contas, de um lado e de outro o que vemos é um imenso patrimonialismo: todo mundo agarrado aos ossos que julgam seus, sem a menor preocupação em saber quem trabalhou, quem foi explorado, quem foi beneficiado, etc.
Como escrevi em meu blog, a única vantagem de todo esse processo foi demonstrar aos brasileiros a importância das consultas populares para a tomada das grandes decisões nacionais (regionais ou locais). Mas quanto ao mérito, foi uma grande oportunidade perdida. E extremamente cara.

Anônimo disse...

Vi seu texto postado por alguém no facebook. Muito bem escrito e muito lúcido. Rodrigo Vizeu