segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre cegueira e responsabilidades


"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
 
"É desta massa que nós somos feitos, 
 metade de indiferença e metade de ruindade."

"A cegueira também é isto, viver num mundo 
onde se tenha acabado a esperança."

"É que vocês não sabem, não o podem saber, 
a responsabilidade que é ter olhos quando ninguém mais vê."
(José Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira)

O que antes era uma obviedade, hoje parece esquecido por quase todos. Ainda assim, não deixa de ser clichê, mas vou dizê-lo: os livros mudam as pessoas. Não todos, mas Ensaio Sobre a Cegueira certamente é um deles.
Impossível ficar indiferente, reconhecendo a si próprio como um monstro em potencial. Ou apenas como humano, afinal, dentro de nós existe uma coisa que não tem nome e essa coisa é o que somos.
Não vou falar mal do período em que vivemos. A despeito do que correntemente se prega, o mundo já foi bem pior. Ainda subjugamos outros seres humanos, mas ao menos isso não é mais aprovado socialmente e, principalmente, existem muitos dispostos a se indignar e lutar contra, inclusive com um aparato institucional, como a Constituição, as leis, o Ministério Público e os organismos internacionais.
Percebe-se, entretanto, uma grande resistência das pessoas em assumir suas responsabilidades, culpando o Estado e o livre-arbítrio de cada um pelas mazelas sociais e individuais, eximindo-se totalmente. Refuto absolutamente este argumento.
É muita ingenuidade achar que a sociedade será mais justa e fraterna apenas por ação dos governantes e das instituições. Isso é ignorar um ponto básico, sobre o Estado ser um reflexo do seu povo. Jamais surgirão lideranças solidárias e preocupadas com o coletivo em uma sociedade que não tenha estas características. Ainda que surjam, serão minoria e não terão espaço para prosperar. O governo, afinal, é feito por pessoas e as pessoas são fruto, em grande parte, do ambiente em que vivem.
Especialmente em um país como o nosso, com um número absurdo de analfabetos, inclusive os funcionais, é demais esperar que cada um seja responsável por seu próprio destino. É um argumento de quem teve todas as condições de crescer, inclusive intelectualmente.
Não se pode crer que duas pessoas partindo de dois pontos tão distintos (miséria x oportunidades) cheguem a um mesmo lugar. Haverá um ou outro caso, para confirmar a regra e atiçar os que acreditam unicamente no esforço individual. Esses vitoriosos, que superam barreiras intransponíveis aos demais, serão usados, por inocência ou má-fé, para justificar a razão de não haver necessidade de políticas públicas específicas, discriminações compensatórias ou mobilização social.
Aqueles que tem uma vida confortável acreditarão que jamais foram beneficiados pelos governos e tudo o que conquistaram foi por esforço pessoal, pelo que não podem ser ainda obrigados a lutar pelos direitos dos outros. Preferem ignorar as políticas econômicas ou fiscais, por exemplo, que lhes aproveitam. Ou então, um passado claramente protecionista de homens brancos e com propriedade, que lhes permitiu nascer em um lar que dispensava certos tipos de atenção estatal.
Não há dúvidas que há mérito em ter trabalhado para conseguir realizar seus objetivos. Por vezes, isso realmente demanda uma energia tão grande que não sobra para o resto. Não se pode, contudo, deixar de reconhecer que a acomodação coletiva  e perene influencia em toda a sociedade.
Quando a elite intelectual do país, que estudou, frequentou universidades, participou de debates e, principalmente, sabe ler (e compreender o que está escrito), não enxerga o papel que deveria assumir, o de interceder por quem não tem condições de compreender plenamente e exigir seus direitos mais básicos, não há esperança. E a cegueira também é viver em um mundo onde não há esperança.
Todos se ressentem de não haver perspectiva de melhora nos investimentos públicos, na moralização da política, na eficácia do Poder Judiciário. Lamentam e repetem para si mesmos que não há nada a fazer. Se isso não é desesperança, eu não sei o que é. Se nem aqueles que teriam força política e intelectual conseguem vislumbrar uma solução, como esperar iniciativa de quem mais precisa do Estado?
Chegamos, portanto, ao ponto principal: a responsabilidade de quem consegue ver. De quem não só vê, mas repara. Essas pessoas tem a obrigação de guiar as outras e impedir que sua única meta seja chegar ao final do dia vivo, alimentado e limpo, como acontece com os cegos, na história de Saramago. Esses são os líderes e vejo muitos deles por aí, mas normalmente sendo alvo de chacota de quem crê que seus atos não terão nenhum impacto na sociedade.
Há ainda os que não conseguem ver totalmente, mas reconhecem sua cegueira parcial e buscam a sabedoria de quem enxerga. Esperam um dia poder ter a clareza do outro e, provavelmente, conseguirão.
Por fim, há os cegos. Os de nascença e os que se tornaram depois. O perigo do mundo não está nos que nasceram assim, ou seja, aqueles que, desde o primeiro dia de suas vidas, estavam fadados ao desconhecimento (para quem não entendeu a metáfora, aqueles que vivem à margem, que não tem acesso à educação e ao desenvolvimento de seu potencial intelectual, criativo e pessoal). O mal do mundo está naqueles que podem voltar a enxergar e se negam. Preferem se encastelar no seu universo, onde o que importa é chegar ao final do dia vivo, alimentado e limpo.
Quem age dessa forma não pode reclamar da insegurança, do egoísmo e da barbárie. Se ninguém vislumbra nenhuma solução para o bem comum, é absolutamente compreensível que se tente fazer o que é melhor para sua própria sobrevivência e bem-estar. Seja isso fingir que não vê o morador de rua ou apontar uma arma para um inocente, em busca de algum bem material. Afinal, lembrem-se, o objetivo não é mais ter dignidade, mas chegar ao final do dia vivo, alimentado e limpo.
Imagino que quem visite este blog não seja cego de nascença. Frequentou a escola, a universidade, viajou, tem acesso à informação e possivelmente vive com algum conforto. Faz parte, ao menos em tese, da tal elite intelectual, que aqui utilizo como sinônimo de escolarizado. Assim, tem a oportunidade de refletir em que grupo está: nos que reparam, nos que conseguem ver ou nos cegos por opção. Em todos os casos, pode mudar de posição, pois lhe foram dados os instrumentos, o que não ocorreu com os que nasceram cegos, a quem, afinal, não se pode imputar a maior parte do insucesso da nossa sociedade, como constantemente se tenta fazer.

 

7 comentários:

Anônimo disse...

Perfeito...

Carolina MacDowell disse...

Brilhantes palavras!! Você ganhou uma fã!

Yúdice Andrade disse...

É um livro para nos modificar, sem dúvida. Se já não fosse teu fã, passaria a ser, com esse apoio maravilhoso do meu autor favorito.

Anônimo disse...

E ainda é bonita...

Ana Miranda disse...

Luiza, você deve, com urgência, oferecer esse texto às revistas, pois esse seu texto TEM que ser lido pelo maior número de pessoas possíveis!!!

Como sempre, você foi brilhante!!!

Ana Miranda disse...

Ah, esqueci...

Estava com saudades de ler-te.

stefano disse...

Esse é um dos meus livros preferidos e realmente é impossível ficar indiferente a ele, para o bem ou para o mal. Muitos reagiram com asco, outros com espanto...
O importante mesmo é que eles nos faz refletir, como, aliás, a maioria dos livros do Saramago, gostando a pessoa ou não.
Tenho uma coleção dele, já te disse mil vezes que temos que trocar mais "figurinhas"!