sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Carta ao Dr. Lucas



Quinhas,

Eu bem sei que, neste momento, te sentes com um peso a menos nas costas. Não posso negar que é justo, depois de seis anos de uma dedicação inimaginável para quem nunca conviveu com um médico, formado ou em formação. Aproveita, irmão, a sensação de dever cumprido. É merecida.
Não te esquece, porém, que se antes tua responsabilidade era contigo mesmo, agora, é com um sem número de pessoas que vai depositar em tuas mãos a própria vida ou, mais precioso ainda, a vida da pessoa que elas mais amam no mundo.
Decerto que todas as profissões são dignas e todos tem a possibilidade de fazer o bem, mas o médico tem diante de si a chance de ajudar o próximo de uma forma muito óbvia e direta, em suas necessidades mais básicas.
À propósito, lembra-te quem é o teu próximo. Não é simplesmente quem está próximo, pois este, é muito fácil ajudar. O desafio está em acudir quem aparentemente não se assemelha a ti, não comunga dos teus valores e princípios e, inclusive, em uma visão bem mundana, mas muito recorrente, não seria sequer digno dos teus cuidados.
Diante disso, é impossível negar a nobreza da profissão, mas não no sentido que prevalece atualmente, de status, prestígio e outras coisas tão frívolas. É nobre porque, quando exercida com amor, compromisso e humildade, é demonstração de sabedoria, grandeza e elevação moral.
Tens, agora, o poder de proporcionar saúde e dignidade às pessoas. Não é um dom, imagina! Dizer que isso te foi dado seria uma ofensa ao teu esforço! Conquistaste, com muito empenho, o conhecimento para curar as doenças do corpo. Espero que saibas que, muitas vezes, também terás que curar as da alma. Acredito que ainda não tiveste a oportunidade de aprender isso, pois só a vida ensina, e não os livros, mas confio na tua simplicidade e na ausência de traços de arrogância e indiferença na tua personalidade.
Muitos dos teus colegas ignoram esse dever, de tratar as pessoas com humanidade e de escutar suas dores mais íntimas. Acham que não lhes cabe. Só posso crer que eles se perderam nos livros e não conheceram a lição vulgar do Sr. Parker: "um grande poder gera uma grande responsabilidade" (Rá!).
Chegando ao fim dessa etapa, posso dizer que me orgulho por ter colaborado para resolver tuas dúvidas, quando ainda não sabias se querias ser médico ou engenheiro. Não sei se os conselhos de uma irmã só um pouco mais velha tiveram tanto peso, mas eu registrei meus votos pela medicina e eles não poderiam ser mais acertados.
Tenho certeza que não me decepcionarás e nunca virarás as costas para quem precisa de ti. Sei também que serás muito feliz, na carreira que escolheste, e isso é o mais importante. Não poderia desejar outra coisa àquele que foi o meu primeiro amigo.

Te amo.

Lu