domingo, 10 de abril de 2011

A infelicidade é contagiosa

“Quem acredita em Deus não faz uma coisa dessas” 
(José Luiz Datena, apresentador, sobre o massacre na escola carioca)


“Posso medir o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas.” 
(Isaac Newton)

Ato contínuo aos atos de extrema violência humana é a tentativa de encontrar explicações plausíveis para as atitudes do agressor. Como se isso fosse possível. Por plausíveis, entenda-se algo que as pessoas possam compreender, de alguma forma. Desta maneira, surgem as explicações simplórias. Entre as justificativas clássicas estão a pobreza, a solidão e a religião, juntando-se a alguns modismos da época, como o bullying.
Argumentos dessa natureza podem até gerar algum sentimento de conforto, mas não resistem a uma análise meramente empírica, tendo em vista que todos conhecem pessoas pobres, sozinhas e/ou que sofreram intimidações na infância ou na adolescência (quem nunca sofreu?) e que jamais seriam cruéis e violentas.
A questão da crença em Deus, no entanto, angaria muitos simpatizantes. Quem não crê em Deus não pode ser uma boa pessoa, certo? Absolutamente errado. Dizer uma atrocidade dessas é ser um ignorante em história. Inúmeras guerras foram travadas em nome de Deus. Aqueles que inauguraram a Era do Terror, jogando aviões contra prédios abarrotados de seres humanos, acreditavam piamente em Deus (e isso é só um exemplo, pois há casos de crueldade em todas as religiões e não só no islamismo).
O Brasil é um país extremamente religioso, o que é comum em nações com histórico recente de subdesenvolvimento, provavelmente em razão da necessidade de justificar o injustificável: a miséria, a desigualdade e as injustiças. É muito mais fácil as pessoas aceitarem seu infortúnio em razão da vontade de Deus e diante da promessa de compensações em uma vida futura do que simplesmente admitir que o sistema não funciona.
Neste ponto, admiro os ateus. Não deve ser fácil viver sem acreditar em nada. É preciso muita coragem para acreditar somente nas pessoas e continuar saindo de casa, tendo em vista que o mundo não é exatamente um lugar seguro - justamente por causa das pessoas, inclusive as religiosas.
A religião e a fé podem ter um significado individual muito forte para cada um, mas, em se tratando de sociedade, sua importância é meramente de controle social, assim como a moral. Quem tem conceitos morais e éticos elevados não precisa de religião para não fazer o mal. A civilidade e, principalmente, o respeito ao ser humano, bastam. Alguns vão mais longe e optam por fazer o bem. Convenhamos que tem muito mais valor aquele que faz o bem sem esperar nada em troca do que aquele que o faz esperando um lugarzinho no céu. Há muitos ateus em trabalhos voluntários, simplesmente por amor e consciência de que sua colaboração para uma sociedade justa e fraterna vai muito além de simplesmente cumprir as leis (do jeitinho brasileiro) e pagar impostos (aqueles que não se conseguiu sonegar).
Não é a falta de fé o problema do mundo. De nada adianta adorar Deus e ser indiferente ao sofrimento alheio. Não são os descrentes o mal da humanidade. Toda dor e maldade é causada unicamente por pessoas infelizes, crentes ou não. Pessoas infelizes contaminam tudo ao seu redor, em proporções pequenas ou gigantescas, dependendo do seu grau de sanidade mental.
Até que ponto não é nossa responsabilidade, como sociedade, que exista tanta infelicidade? Que valores propagamos? Que tipo de pressão exercemos sobre nós mesmos e sobre os outros? Tanta necessidade de ter sucesso é propícia à felicidade? 
O mundo não é doente por ele mesmo. Nós fazemos parte dessa podridão toda quando excluímos, humilhamos ou ignoramos, mas continuamos fingindo que não.