segunda-feira, 12 de dezembro de 2011

Sobre cegueira e responsabilidades


"Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara."
 
"É desta massa que nós somos feitos, 
 metade de indiferença e metade de ruindade."

"A cegueira também é isto, viver num mundo 
onde se tenha acabado a esperança."

"É que vocês não sabem, não o podem saber, 
a responsabilidade que é ter olhos quando ninguém mais vê."
(José Saramago, em Ensaio Sobre a Cegueira)

O que antes era uma obviedade, hoje parece esquecido por quase todos. Ainda assim, não deixa de ser clichê, mas vou dizê-lo: os livros mudam as pessoas. Não todos, mas Ensaio Sobre a Cegueira certamente é um deles.
Impossível ficar indiferente, reconhecendo a si próprio como um monstro em potencial. Ou apenas como humano, afinal, dentro de nós existe uma coisa que não tem nome e essa coisa é o que somos.
Não vou falar mal do período em que vivemos. A despeito do que correntemente se prega, o mundo já foi bem pior. Ainda subjugamos outros seres humanos, mas ao menos isso não é mais aprovado socialmente e, principalmente, existem muitos dispostos a se indignar e lutar contra, inclusive com um aparato institucional, como a Constituição, as leis, o Ministério Público e os organismos internacionais.
Percebe-se, entretanto, uma grande resistência das pessoas em assumir suas responsabilidades, culpando o Estado e o livre-arbítrio de cada um pelas mazelas sociais e individuais, eximindo-se totalmente. Refuto absolutamente este argumento.
É muita ingenuidade achar que a sociedade será mais justa e fraterna apenas por ação dos governantes e das instituições. Isso é ignorar um ponto básico, sobre o Estado ser um reflexo do seu povo. Jamais surgirão lideranças solidárias e preocupadas com o coletivo em uma sociedade que não tenha estas características. Ainda que surjam, serão minoria e não terão espaço para prosperar. O governo, afinal, é feito por pessoas e as pessoas são fruto, em grande parte, do ambiente em que vivem.
Especialmente em um país como o nosso, com um número absurdo de analfabetos, inclusive os funcionais, é demais esperar que cada um seja responsável por seu próprio destino. É um argumento de quem teve todas as condições de crescer, inclusive intelectualmente.
Não se pode crer que duas pessoas partindo de dois pontos tão distintos (miséria x oportunidades) cheguem a um mesmo lugar. Haverá um ou outro caso, para confirmar a regra e atiçar os que acreditam unicamente no esforço individual. Esses vitoriosos, que superam barreiras intransponíveis aos demais, serão usados, por inocência ou má-fé, para justificar a razão de não haver necessidade de políticas públicas específicas, discriminações compensatórias ou mobilização social.
Aqueles que tem uma vida confortável acreditarão que jamais foram beneficiados pelos governos e tudo o que conquistaram foi por esforço pessoal, pelo que não podem ser ainda obrigados a lutar pelos direitos dos outros. Preferem ignorar as políticas econômicas ou fiscais, por exemplo, que lhes aproveitam. Ou então, um passado claramente protecionista de homens brancos e com propriedade, que lhes permitiu nascer em um lar que dispensava certos tipos de atenção estatal.
Não há dúvidas que há mérito em ter trabalhado para conseguir realizar seus objetivos. Por vezes, isso realmente demanda uma energia tão grande que não sobra para o resto. Não se pode, contudo, deixar de reconhecer que a acomodação coletiva  e perene influencia em toda a sociedade.
Quando a elite intelectual do país, que estudou, frequentou universidades, participou de debates e, principalmente, sabe ler (e compreender o que está escrito), não enxerga o papel que deveria assumir, o de interceder por quem não tem condições de compreender plenamente e exigir seus direitos mais básicos, não há esperança. E a cegueira também é viver em um mundo onde não há esperança.
Todos se ressentem de não haver perspectiva de melhora nos investimentos públicos, na moralização da política, na eficácia do Poder Judiciário. Lamentam e repetem para si mesmos que não há nada a fazer. Se isso não é desesperança, eu não sei o que é. Se nem aqueles que teriam força política e intelectual conseguem vislumbrar uma solução, como esperar iniciativa de quem mais precisa do Estado?
Chegamos, portanto, ao ponto principal: a responsabilidade de quem consegue ver. De quem não só vê, mas repara. Essas pessoas tem a obrigação de guiar as outras e impedir que sua única meta seja chegar ao final do dia vivo, alimentado e limpo, como acontece com os cegos, na história de Saramago. Esses são os líderes e vejo muitos deles por aí, mas normalmente sendo alvo de chacota de quem crê que seus atos não terão nenhum impacto na sociedade.
Há ainda os que não conseguem ver totalmente, mas reconhecem sua cegueira parcial e buscam a sabedoria de quem enxerga. Esperam um dia poder ter a clareza do outro e, provavelmente, conseguirão.
Por fim, há os cegos. Os de nascença e os que se tornaram depois. O perigo do mundo não está nos que nasceram assim, ou seja, aqueles que, desde o primeiro dia de suas vidas, estavam fadados ao desconhecimento (para quem não entendeu a metáfora, aqueles que vivem à margem, que não tem acesso à educação e ao desenvolvimento de seu potencial intelectual, criativo e pessoal). O mal do mundo está naqueles que podem voltar a enxergar e se negam. Preferem se encastelar no seu universo, onde o que importa é chegar ao final do dia vivo, alimentado e limpo.
Quem age dessa forma não pode reclamar da insegurança, do egoísmo e da barbárie. Se ninguém vislumbra nenhuma solução para o bem comum, é absolutamente compreensível que se tente fazer o que é melhor para sua própria sobrevivência e bem-estar. Seja isso fingir que não vê o morador de rua ou apontar uma arma para um inocente, em busca de algum bem material. Afinal, lembrem-se, o objetivo não é mais ter dignidade, mas chegar ao final do dia vivo, alimentado e limpo.
Imagino que quem visite este blog não seja cego de nascença. Frequentou a escola, a universidade, viajou, tem acesso à informação e possivelmente vive com algum conforto. Faz parte, ao menos em tese, da tal elite intelectual, que aqui utilizo como sinônimo de escolarizado. Assim, tem a oportunidade de refletir em que grupo está: nos que reparam, nos que conseguem ver ou nos cegos por opção. Em todos os casos, pode mudar de posição, pois lhe foram dados os instrumentos, o que não ocorreu com os que nasceram cegos, a quem, afinal, não se pode imputar a maior parte do insucesso da nossa sociedade, como constantemente se tenta fazer.

 

domingo, 11 de dezembro de 2011

Orgulho de ser paraense?

Acabou o plebiscito e a imensa maioria da população do estado optou pelo não desmembramento do Pará. Os dados sobre a votação por região indicam que cerca de 90% dos moradores do tal "Pará remanescente" votaram pelo NÂO e a mesma proporção dos habitantes das outras regiões votou no SIM. Por questões numéricas, o primeiro venceu. Tudo certo, democracia é isso e é muito justo que a população inteira tenha sido consultada.
O que não está certo é, neste momento, ter uma comemoração na Doca e em vários outros pontos da cidade. Enquanto isso, cerca de duas milhões de pessoas estão desoladas porque tinham esperança que o SIM lhes conferisse uma perspectiva melhor, um futuro mais digno, um governo mais presente.
Veja bem, não há consenso sobre esta ser uma solução eficaz, mas isso não é nem um pouco relevante. O importante é que nossos irmãos, brasileiros e paraenses (por nascimento ou opção), tinham esperança e acreditavam nisso. Não há necessidade de concordar, mas há obrigação moral de ser solidário.
Essa comemoração é mais uma prova de que a população da capital continua não se importando com o futuro das pessoas que moram no interior. Este era o momento de segurar na mão e dizer que vamos caminhar juntos e que seremos um povo unido. Mas não. Preferimos deixar claro que não entendemos o desejo deles. Mais uma vez.
No último programa do SIM, apareceram moradores de cidades abandonadas, em casas abandonadas, segurando cartazes pedindo que Belém olhasse por eles. Ainda que você não acredite nos políticos locais e entenda que unidos cresceremos, não é possível que não tenha se sensibilizado. "Belém, olhe por nós". Não foram os políticos que pediram. Foram as pessoas. Ainda que elas tenham sido ludibriadas por uma elite com interesses escusos, que as fez acreditar que dividir o estado resolveria os problemas, elas acreditavam. É uma desumanidade apontar o dedo para elas e dizer: Perdeu! Rá!
Não sei como o belenense não percebeu que não se tratava de uma questão de ganhar e perder. Francamente. É muita falta de sensibilidade, solidariedade e, principalmente, senso crítico. Nas disputas, sempre um ganha e outro perde. Nas negociações, existe a possibilidade de ambos ganharem. Estou certa que o que estava em jogo não era uma disputa.
Alguns dizem que o plebiscito serviu para recuperar o orgulho de ser paraense. Pode ser. Ou não. Particularmente, acho que isso vai passar mais rápido do que veio e vamos voltar a implorar por reconhecimento do sul maravilha. Prova disso é a imagem ao lado, que circulou nas redes sociais nas últimas semanas.
É claro que gosto não se discute, mas acho pouco provável que alguém considere que a paisagem retratada oferece uma linda vista, como diz a legenda. O que eu vejo, além de um canal e um pedacinho de rio, são prédios, muitos prédios, que, em algumas mentes distorcidas, significam civilização. Para mim, a foto grita: Ei, tá vendo? Nós temos prédios! Prédios!
Se a intenção do autor da legenda era mostrar que Belém tem água, além de mato, e mostrar verdadeiro orgulho de suas águas e suas árvores, ele deveria ter colocado uma foto como esta outra. 
Para quem não sabe, isto também é Belém. Na Ilha do Combu. Poderia ser Outeiro, Ilha das Onças, etc. 
Lamento muito não ter batido uma foto, no meu último passeio pela orla, de uma placa que dizia: Cuidado, grande fluxo de canoas. Afinal, esse rio é a rua deles, que agora é dividido com lanchas e jet skis muito caros.
A exposição desta foto - esta sim, uma paisagem linda de se ver da janela - iria contra o objetivo de quem divulgou a primeira imagem. Perpetuaria a opinião dos sulistas de que aqui só tem índio. E não tem ofensa maior a um paraense do que dizer que aqui só tem índio!
Não consigo concluir outra coisa deste medo todo de ser confundindo com um indígena do que a opinião de que eles são seres inferiores. Não há qualquer razoabilidade em supor que alguém se ofenderia tanto com uma idéia, ainda que ela esteja equivocada, se a idéia em questão não for considerada pelo ofendido algo que lhe denigra a imagem.
Em pouco tempo, estaremos negando novamente tudo o que faz parte da nossa cultura, salvo o açaí, o guaraná (que agora são internacionais!), o tucupi e a maniçoba. Ah, tem o Círio também, a nossa única maravilha que não é de comer. Os ribeirinhos, os índios, as canoas, tudo isso será desejável que permaneça bem longe. No Tapajós, de preferência. Continuaremos dizendo que temos vergonha alheia quando nossa gente aparecer na televisão. Reclamaremos que os programas só mostram a gente feia de Belém. Cara de índio, afinal.
A população de Belém tem necessidade de provar o que é civilizada, mas faz isso com ações bem erradas. A brutalidade no trânsito, o desrespeito ao horário de colocar o lixo para fora, o egoísmo, a falta de educação e o culto a tudo o que vem de fora são bem conhecidos. Acabamos de incluir no nosso rol de incivilidades a perversidade. Pelo menos é isso que eu acho de quem comemora a desesperança alheia.

quinta-feira, 8 de dezembro de 2011

Um Pará grande para quem?

O plebiscito é daqui a poucos dias e eu ainda não tenho certeza sobre o meu voto. Tive a ilusão que a campanha eleitoral poderia me ajudar, mas é claro que isso não aconteceu. Musiquinhas cantadas por artistas locais não auxiliam em nada. Depoimentos emocionados de atores e jogadores de futebol, tampouco. Não tenho, infelizmente, capacidade técnica para analisar os números e saber quem está mentindo sobre as perspectivas econômicas e sociais.
A verdade é que isso não seria necessário se os governos tivessem dado atenção homogênea a todas as regiões, como deveria ser. Então, tem razão os que dizem que a divisão não resolve nada, que a atenção do governo estadual seria suficiente, mas não há nenhum motivo para acreditar que isso vai acontecer agora, depois de tanto tempo de descaso. Nenhum.
Os belenenses, particularmente, tem feito um papel bem ridículo nesse plebiscito. Discursos vazios sobre querer manter o Pará grande são pura hipocrisia. Quase 100% da população da capital faz o sinal da cruz diante da possibilidade de ir morar em Marabá, por exemplo (falo isso por experiência própria; eu já estive nessa situação e me apeguei aos santos que eu nem acredito!).
Querem manter o "Pará grande" simplesmente pelos recursos que vem de lá, não por cogitarem ir até tão longe. E tem a cara de pau de chamar brasileiros de forasteiros. Ora, se pessoas de outros estados do país ocuparam (e desenvolveram) a região, foi porque as pessoas da capital sempre tiveram resistência a trabalhar lá. Ouvi de um executivo cearense a dificuldade que é levar gente de Belém para a empresa, mesmo com os altos salários. Muito mais fácil convidar paulistas, mineiros, goianos, etc. Não são forasteiros, eles tem todo o direito de estar aqui e lutar por tudo o que a Constituição e as leis lhes garantem, inclusive o de motivar a divisão. Dizer o contrário é se equiparar a um paulista estúpido que quer afogar nordestinos.
O que eu sempre achei é que, independente de ter dúvidas sobre a divisão ser realmente eficaz, o pleito da população (inclusive dos "forasteiros") é legítimo. Se eles geram riquezas que não são nem de longe aplicadas proporcionalmente no local, tem todo o direito de se indignar e exigir autonomia para gerenciar os próprios recursos e, talvez, sair do estado deplorável em que vivem.
Outra grande bobagem é argumentar que os defensores da divisão chegaram pobres ao Pará, enriqueceram e agora querem levar o que é nosso. Não é nosso. Sinceramente, é mais deles do que nosso. Eles moram lá, empregam gente lá, desenvolvem a região e tem dificuldades de trabalhar porque não tem infraestrutura. Não tem estradas, pessoal qualificado, órgãos estatais bem equipados. Tudo isso prejudica os negócios e, consequentemente, a população toda.
A minha maior dúvida diz respeito às pessoas que governariam os outros Estados. Depois de ouvir o Deputado Lira Maia dizer que os governos estaduais trabalhariam em acampamentos, ficou muito claro (mais claro ainda, quero dizer) que as pessoas à frente disso não são sérias.
Eles não criaram essa vontade nas pessoas. O desejo da divisão é do povo e eles, como representantes deste povo, encamparam a idéia, o que é ótimo. O problema é, como sempre, que essa defesa não se deu pelos motivos corretos, que é o interesse da população. Não se pode dizer, contudo, que os políticos de lá são menos sérios dos que os daqui. Sinto muito. De todo modo, talvez este não seja o momento. O Brasil ainda não atingiu um nível de moralidade suficiente para uma empreitada dessas.
Repito, por fim, que não tenho certeza que a divisão do estado melhoraria a vida dos moradores desses locais. O que não admito é belenense se fazendo de desentendido, não enxergando que, por trás de políticos fanfarrões, existe uma população que deseja receber benefícios proporcionais à sua colaboração com a receita do estado. Não aceito que se defenda com tanta veemência um "Pará grande", apenas para não perder as suas riquezas, enquanto as milhões de pessoas que as produzem não vêem a cor do dinheiro. Gostaria de ver gente defendendo a integridade do território não pode medo de virar um "Parázinho", mas por acreditar que isso é o melhor para toda a população, principalmente a que vive em piores condições.

sexta-feira, 19 de agosto de 2011

Carta ao Dr. Lucas



Quinhas,

Eu bem sei que, neste momento, te sentes com um peso a menos nas costas. Não posso negar que é justo, depois de seis anos de uma dedicação inimaginável para quem nunca conviveu com um médico, formado ou em formação. Aproveita, irmão, a sensação de dever cumprido. É merecida.
Não te esquece, porém, que se antes tua responsabilidade era contigo mesmo, agora, é com um sem número de pessoas que vai depositar em tuas mãos a própria vida ou, mais precioso ainda, a vida da pessoa que elas mais amam no mundo.
Decerto que todas as profissões são dignas e todos tem a possibilidade de fazer o bem, mas o médico tem diante de si a chance de ajudar o próximo de uma forma muito óbvia e direta, em suas necessidades mais básicas.
À propósito, lembra-te quem é o teu próximo. Não é simplesmente quem está próximo, pois este, é muito fácil ajudar. O desafio está em acudir quem aparentemente não se assemelha a ti, não comunga dos teus valores e princípios e, inclusive, em uma visão bem mundana, mas muito recorrente, não seria sequer digno dos teus cuidados.
Diante disso, é impossível negar a nobreza da profissão, mas não no sentido que prevalece atualmente, de status, prestígio e outras coisas tão frívolas. É nobre porque, quando exercida com amor, compromisso e humildade, é demonstração de sabedoria, grandeza e elevação moral.
Tens, agora, o poder de proporcionar saúde e dignidade às pessoas. Não é um dom, imagina! Dizer que isso te foi dado seria uma ofensa ao teu esforço! Conquistaste, com muito empenho, o conhecimento para curar as doenças do corpo. Espero que saibas que, muitas vezes, também terás que curar as da alma. Acredito que ainda não tiveste a oportunidade de aprender isso, pois só a vida ensina, e não os livros, mas confio na tua simplicidade e na ausência de traços de arrogância e indiferença na tua personalidade.
Muitos dos teus colegas ignoram esse dever, de tratar as pessoas com humanidade e de escutar suas dores mais íntimas. Acham que não lhes cabe. Só posso crer que eles se perderam nos livros e não conheceram a lição vulgar do Sr. Parker: "um grande poder gera uma grande responsabilidade" (Rá!).
Chegando ao fim dessa etapa, posso dizer que me orgulho por ter colaborado para resolver tuas dúvidas, quando ainda não sabias se querias ser médico ou engenheiro. Não sei se os conselhos de uma irmã só um pouco mais velha tiveram tanto peso, mas eu registrei meus votos pela medicina e eles não poderiam ser mais acertados.
Tenho certeza que não me decepcionarás e nunca virarás as costas para quem precisa de ti. Sei também que serás muito feliz, na carreira que escolheste, e isso é o mais importante. Não poderia desejar outra coisa àquele que foi o meu primeiro amigo.

Te amo.

Lu

domingo, 10 de abril de 2011

A infelicidade é contagiosa

“Quem acredita em Deus não faz uma coisa dessas” 
(José Luiz Datena, apresentador, sobre o massacre na escola carioca)


“Posso medir o movimento dos corpos celestiais, mas não a loucura das pessoas.” 
(Isaac Newton)

Ato contínuo aos atos de extrema violência humana é a tentativa de encontrar explicações plausíveis para as atitudes do agressor. Como se isso fosse possível. Por plausíveis, entenda-se algo que as pessoas possam compreender, de alguma forma. Desta maneira, surgem as explicações simplórias. Entre as justificativas clássicas estão a pobreza, a solidão e a religião, juntando-se a alguns modismos da época, como o bullying.
Argumentos dessa natureza podem até gerar algum sentimento de conforto, mas não resistem a uma análise meramente empírica, tendo em vista que todos conhecem pessoas pobres, sozinhas e/ou que sofreram intimidações na infância ou na adolescência (quem nunca sofreu?) e que jamais seriam cruéis e violentas.
A questão da crença em Deus, no entanto, angaria muitos simpatizantes. Quem não crê em Deus não pode ser uma boa pessoa, certo? Absolutamente errado. Dizer uma atrocidade dessas é ser um ignorante em história. Inúmeras guerras foram travadas em nome de Deus. Aqueles que inauguraram a Era do Terror, jogando aviões contra prédios abarrotados de seres humanos, acreditavam piamente em Deus (e isso é só um exemplo, pois há casos de crueldade em todas as religiões e não só no islamismo).
O Brasil é um país extremamente religioso, o que é comum em nações com histórico recente de subdesenvolvimento, provavelmente em razão da necessidade de justificar o injustificável: a miséria, a desigualdade e as injustiças. É muito mais fácil as pessoas aceitarem seu infortúnio em razão da vontade de Deus e diante da promessa de compensações em uma vida futura do que simplesmente admitir que o sistema não funciona.
Neste ponto, admiro os ateus. Não deve ser fácil viver sem acreditar em nada. É preciso muita coragem para acreditar somente nas pessoas e continuar saindo de casa, tendo em vista que o mundo não é exatamente um lugar seguro - justamente por causa das pessoas, inclusive as religiosas.
A religião e a fé podem ter um significado individual muito forte para cada um, mas, em se tratando de sociedade, sua importância é meramente de controle social, assim como a moral. Quem tem conceitos morais e éticos elevados não precisa de religião para não fazer o mal. A civilidade e, principalmente, o respeito ao ser humano, bastam. Alguns vão mais longe e optam por fazer o bem. Convenhamos que tem muito mais valor aquele que faz o bem sem esperar nada em troca do que aquele que o faz esperando um lugarzinho no céu. Há muitos ateus em trabalhos voluntários, simplesmente por amor e consciência de que sua colaboração para uma sociedade justa e fraterna vai muito além de simplesmente cumprir as leis (do jeitinho brasileiro) e pagar impostos (aqueles que não se conseguiu sonegar).
Não é a falta de fé o problema do mundo. De nada adianta adorar Deus e ser indiferente ao sofrimento alheio. Não são os descrentes o mal da humanidade. Toda dor e maldade é causada unicamente por pessoas infelizes, crentes ou não. Pessoas infelizes contaminam tudo ao seu redor, em proporções pequenas ou gigantescas, dependendo do seu grau de sanidade mental.
Até que ponto não é nossa responsabilidade, como sociedade, que exista tanta infelicidade? Que valores propagamos? Que tipo de pressão exercemos sobre nós mesmos e sobre os outros? Tanta necessidade de ter sucesso é propícia à felicidade? 
O mundo não é doente por ele mesmo. Nós fazemos parte dessa podridão toda quando excluímos, humilhamos ou ignoramos, mas continuamos fingindo que não.

terça-feira, 8 de março de 2011

Dia da mulherzinha

Muita gente pode pensar o contrário, mas não, eu não me ofendo quando me desejam parabéns pelo Dia da Mulher. Só não faz diferença! Considerando que metade da população mundial é mulher, não vejo nenhum mérito nisso.
Tinha em mente apenas escrever que o dia em questão poderia até existir, desde que significasse mais do que rosas e chocolates*. Não é um dia de sair dizendo que as mulheres são especiais, que fazem o mundo mais bonito. Deveria ser uma oportunidade de conscientização de fato, para estimular a valorização de políticas públicas que visem aliviar o sofrimento de milhões de mulheres que ganham menos que os homens, que não tem creches para deixar os filhos, que lutam por pensão alimentícia de um crápula, que se submetem a agressões físicas e psicológicas por dependência financeira, etc. 
Ocorre que tais dificuldades, por serem de natureza econômica, acabam por atingir somente mulheres de classes sociais baixas, motivo pelo qual as da classe média e alta acham que o feminismo não faz mais sentido (neste sentido, veja mais aqui).
Saindo dessa realidade esquecida, o amigo André Coelho fez uma manifestação maravilhosa, que traz o problema para o nosso mundinho, o das mulheres que tem as mesmas oportunidades profissionais e educacionais que os homens. Disse ele: É revoltantemente hipócrita dar "parabéns" e uma rosa para a mulher que não teve sua promoção porque é mulher, para aquela que é assediada no trabalho porque é mulher, para a mãe que precisa cuidar sozinha das crianças porque é mulher, para a adolescente que não pôde viajar com o namorado porque é mulher, para a menina que precisa lavar a louça depois do jantar porque é mulher.
Quer dizer, os irmãos, pais, namorados, maridos e amigos acham que as suas mulheres são tão, mas tão especiais, que merecem ir ao supermercado, cuidar da casa e lavar a louça todo dia, sozinhas! Não é fantástico? Não é fascinante que o mesmo homem que no Dia da Mulher leva a esposa para almoçar fora, para que ela não tenha trabalho, a deixe fazer tudo sozinha durante o resto do ano? Eu acho comovente.
É intrigante que o mesmo pai que presenteia a esposa e a filha neste dia, e que se diz um admirador das mulheres, não deixe a filha viajar com o namorado, com seu próprio dinheiro, enquanto o filhão é incentivado, inclusive financeiramente, a fazê-lo.
Melhor ainda é o chefe que distribui homenagens às suas funcionárias, mas não as promove porque elas supostamente são emocionalmente instáveis, não sabem lidar com pressão e, tragédia dos tragédias, podem ter um filho! (Por favor, leiam sobre isso aqui).
Então, amigas, a despeito de vocês estudarem mais que os homens e terem seus objetivos profissionais atingidos até agora, o preconceito está dentro da casa de vocês. Ou, dentro de vocês, quando chamam uma mulher com vida sexual ativa, sem parceiro fixo, de vagabunda. Está dentro de vocês quando estão loucas de vontade e não transam na primeira noite, para que o homem não a veja com maus olhos. Pior do que isso, está sendo perpetuado por vocês, quando insistem em criar filhas como princesinhas e meninos como super-heróis. Crianças são apenas crianças. Todo o resto, dos papéis pré-definidos,  vocês que colocam na cabeça delas.
Pensem nisso. Aceitem de bom grado as flores e chocolates, não tenham vergonha de gostar de mimos - os homens também gostam! - mas vejam bem de onde eles vem, se de um homem que realmente vê a mulher como igual e só aproveita o dia para ser gentil, ou se de um homem machista, que lhe dá um agradinho como quem dá banana para macaco de zoológico, só para ver ele ficar felizinho.


Qualquer mulher gosta de receber flores e chocolates, mas achar que no dia 08 de março isso é uma obrigação masculina, é coisa de mulherzinha. Eu acho.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"Born this way"

O menino da foto ao lado é o Dennis, que hoje já é um adulto bem resolvido. Seus pais não lhe pediram pra colocar a mão na cintura ou levantar o pé. Ele o fez por conta própria, porque quis, porque seus gestos eram afeminados, porque ele era gay desde aquela época, ou, provavelmente, desde que nasceu.
A foto foi extraída do blog Born this way (algo como Nascido assim), uma iniciativa de Paul V., um californiano que pretende, de uma forma pouco ortodoxa, mostrar que ninguém escolhe ser gay, mas sim nasce com tal preferência sexual.
Ele pede para que os leitores gays mandem suas fotos de crianças, nas quais se reconheçam e admitam que a condição lhes acompanha desde a infância.
Comungo da opinião de Paul: não há exatamente uma opção pela homossexualidade, mas sim uma característica - como a cor da pele ou do cabelo -, algo que não se pode mudar (afinal por opção, entende-se uma pluralidade de possibilidades). Esta posição, diga-se de passagem, está sendo cada vez mais admitida. Em entrevista à Veja da semana passada, o cantor Ricky Martin se manifestou neste sentido.
Acredito que a defesa da opção pela sexualidade tenha surgido para fazer um contraponto com uma opinião outrora dominante de que a homossexualidade se tratava de uma doença e que, portanto, teria um tratamento. Foi uma forma de se firmar, de evitar a pecha de doente ou anormal. Foi válido.
Entretanto, em uma sociedade que avança em direção à tolerância - a passos lentos, mas avança - a negação da característica genética e/ou psicológica da homossexualidade não faz mais tanto sentido. De certa forma, quase todo mundo já entendeu, mesmo que não admita, que ser diferente é normal.
Então, pelo amor do Senhor, como discriminar uma pessoa por algo que ela não pode escolher?

domingo, 30 de janeiro de 2011

Domingo

O domingo costuma ser injustiçado. Normalmente, muita gente não gosta dele e o chama de tedioso. Deve ser mesmo, para quem não sabe ouvir o silêncio. Desconfio que domingo seja um dos melhores dias da minha semana, especialmente as suas manhãs.
Não gosto de acordar muito tarde, para não perdê-las. Durmo até a hora que dá vontade, mas normalmente ainda me restam duas ou três horinhas abençoadas antes do almoço. Não é a questão do não fazer nada que me atrai, já que nem todos os meus sábados são ocupados, mas é o clima.
Há algo de diferente no domingo, que inspira paz. A vida passa devagar. As ruas estão vazias e o único barulho que entra na casa é o som de bossa nova de alguma janela próxima, que eu não sei bem qual. Acredito que o vizinho também goste de domingo. Somos cúmplices, mas ele não sabe disso.
É gostoso ficar sozinha nessa tranquilidade. A companhia dos que eu amo pode esperar.
Talvez esteja generalizando, mas acho que quem gosta de sua própria companhia, de um bom livro e de sua família, não considera o domingo tedioso. Espero que seja o caso de vocês.
Bom domingo! E que ele passe devagar, como de costume!

terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Eu acho bom que Deus exista!

Eu acho bom que Deus exista! Ah, acho, sim! Se eu chegar lá do outro lado e ele não existir, ficarei muito aborrecida. Mesmo que eu não chegue ao outro lado, porque não exista nada do outro lado, eu darei um jeito de ser um nada muito aborrecido!
Em uma escala menor, vou ficar com um pouco de pena dos que viveram honesta e eticamente visando apenas o Paraíso - e não o bem comum -, mas o meu problema maior será com aqueles desgraçados que vivem um paraíso na terra, as custas dos outros, e não pagarão por isso. Não tenho mais ilusão que algumas criaturas, ricas e poderosas, passarão um dia sequer na cadeia, então resta a justiça divina. Se ela não existir, como não ter vontade de garantir por si próprio que ladrões, pedófilos e assassinos poderosos comam o pão que o diabo amassou?
Olhando por esse ponto, seria até mais importante que o diabo existisse (oh, blasfêmia!), para que, ao menos, os sacripantas queimem no fogo do inferno! Quem for bonzinho, vai perdoar a ilusão do paraíso, eu espero.
De qualquer forma, já que não dá pra confiar na Justiça, eu acho bom que Deus exista!

sábado, 1 de janeiro de 2011

Enfim, o poder

Muitas não veem mais sentido na luta pela igualdade da mulher. Acham que já conseguimos. É verdade, em parte. Eu me sinto igualmente capaz de conseguir tudo. Não me sinto discriminada em nada, mas negar que o caminho ainda não terminou é estar focada no próprio umbigo e não enxergar a realidade ao redor.
Mulheres de classe média - alta, especialmente - não tem do que se queixar. As oportunidades são as mesmas, a escolaridade é maior, o salário é compatível. Assim, o discurso pode parecer bobagem, mas não é.
Nas periferias das grandes cidades e nos grotões do país, as coisas são muito diferentes. A ausência de informação, de oportunidade e de políticas públicas afasta milhões de mulheres do mercado de trabalho. Meninas que engravidam cedo e largam os estudos; mães que trabalham e não tem uma creche para deixar os filhos; mães que deixam de trabalhar para cuidar dos filhos. Mulheres que dependem financeiramente de seus homens, que deixam desassistidas elas e seus filhos, quando resolvem ir embora, razão pela qual elas se submetem a humilhações de toda sorte (esqueça a lenda da mulher de malandro - o motivo real é esse!).
Eu acredito, sim, em dias melhores. O momento é de esperança. Não importa o partido, não importa a ideologia. O simbolismo de ter uma mulher no comando de um país é enorme, ainda mais pela raridade do fato no mundo inteiro. Sim, podemos comandar. Estamos aptas.
E tem mais: Dilma, como bem disse, é agora a Presidente de todos os brasileiros. Quem não torce pela sua sorte e seu sucesso é um abutre que odeia o seu país ou é cego de ódio e preconceito. Minha única cisma com ela, até o momento, é essa história de se autodeclarar Presidenta. É Presidente e pronto!

Nunca antes na história desse país

Podem falar o que quiser sobre Luiz Inácio Lula da Silva, mas nunca antes na história desse país houve uma posse como a dele.
Caravanas saíram do país inteiro para acompanhar a chegada de Lula e do Partido dos Trabalhadores ao cargo máximo da política brasileira. Era militância, sim, mas militância espontânea, de convicção, de ideais. Pessoas que tinham certeza de que a vida iria melhorar.
Eu tinha apenas 18 anos, mas lembro como se fosse hoje das pessoas invadindo o lago à frente do Palácio do Planalto, fazendo uma festa, se divertindo. Foi de emocionar.
Naquele tempo, eu ainda era uma típica leitora de VEJA (perdão gente, 18 anos - eu ainda leio a revista, mas senso crítico é fundamental) e acreditava que Lula criaria um caos. Quando vi a manifestação espontânea das pessoas, a emoção e a esperança, as coisas começaram a mudar. Se tanta gente tinha tanta paixão por ele, era hora de dar um crédito.
Lula não me conquistou como eleitora, mas ganhou o meu respeito como cidadã. Conseguiu o que parecia impossível: agradar a quase todos, a 87% dos brasileiros. Sinto muito, classe pensante do pais, mas eu não ousaria dizer que 87% da população é ignorante. É muita pretensão. Os que temiam o Governo Lula, tiveram uma grata surpresa. Os que tinham esperança, não se decepcionaram. A vida melhorou, é fato.
Não importa se foi a economia, se foram os ventos favoráveis, se foi a estabilidade. O fato é que a vida melhorou. Vocês que idolatram os Estados Unidos, lá eles também votam pela economia. Barack Obama teve uma derrota retumbante porque a economia do país vai mal, mesmo não sendo exatamente culpa dele. É tendência, companheiros, se a vida vai bem, vota-se pela continuidade. Se vai mal, vota-se pela mudança. Algo errado nisso? Alguma grande ignorância? Incongruência? Não. Totalmente normal. Os brasileiros não são menos espertos do que os outros.
O governante mais popular da história do Brasil passará a faixa presidencial para sua sucessora em poucos minutos. Não foi o melhor que poderia ser feito, mas milhões saíram da miséria. Se você não sabe o que é isso, não julgue quem vota pela barriga! Não importa se foi pela Bolsa Família, que é muito válida, mas milhões passaram a fazer três refeições por dia, como ele prometeu! Diante disso, falar menas não é um grande problema.
Tem ainda a política externa. Controversa. Não gosto mesmo. A maioria das ações parece ter o único propósito de deixar claro que o Brasil não se curva à vontade da política americana. De qualquer forma, provavelmente pelo ganho de relevância do país na área econômica, deixamos de ser invisíveis. Somos uma nação grande. Não sei se o confronto de Lula ajudou, mas somos ouvidos e respeitados, ainda quando contrariados.
Particularmente, sinto que o orgulho de ser brasileiro se estendeu para além da Copa do Mundo. Sinto isso por aqui e por algumas andanças fora.
Lembro quando um amigo, há cerca de cinco anos, disse que, em trinta anos, esse seria um grande país. Ri internamente, acreditando que seríamos ainda por muito tempo um país do futuro. Hoje, acredito. Acredito piamente que ainda verei um país mais justo, apesar de tudo (e olha que é muita coisa puxando para trás!).
Se tudo isso é por obra de Luiz Inácio, eu não sei, mas que tudo isso aconteceu no governo dele, ah, aconteceu...


Atualizando: Para quem esperava que Lula fizesse sombra à Dilma, ele não fez nenhum pronunciamento e se retirou do parlatório logo após passar a faixa, deixando-a brilhar sozinha. Bom começo.