segunda-feira, 8 de novembro de 2010

Homeless

Conheci Camila por acaso, quando eu e Eduardo esperávamos o inicio de um show de jazz e resolvemos jantar em um restaurante ao lado da casa de espetáculos. Escolhemos o local em decorrência da proximidade, mas, ao entrar, percebi que era um lugar realmente descolado, pois havia uma banda tocando bossa nova. Brasileiros da gema, pelo sotaque.
Nos sentamos e ficamos curtindo o som. Os músicos, que se julgavam cercados por tchecos, conversavam livremente entre si, o que nos provocava muitas risadas, já que Camila era muito, mas muito desbocada.
A banda deu uma pausa e, por coincidência, Camila ocupou a mesa ao lado da nossa. Nos identificamos como brasileiros e começamos a conversar. Imaginando que ela morava em Praga, perguntei há quanto tempo ela estava lá. Ela respondeu que estava há três dias. Nos assustamos um pouco e ela percebeu. Disse que não morava na cidade. Os companheiros de banda, sim, mas ela, não. Acabara de voltar de Jerusalém, onde passara duas semanas. Estava programando ficar esse tempo também em Praga e depois partir para outro lugar, ainda não sabido.
Questionada onde morava, ela disse "I'm a homeless". E completou dizendo que "morava na música". Ok, esse é o tipo de pessoa para quem eu só tenho uma definição: muito doida! Interessante, sem dúvida, mas maluca. Confesso que fiquei meio fascinada, já que pessoas desprendidas assim são absolutamente encantadoras, ainda que seu futuro seja incerto demais pro meu gosto.
Para fins oficiais, já que precisa comprovar residência fixa para as autoridades européias, Camila usa um endereço de uma amiga na Dinamarca, mas nunca vai lá. Nem tem dinheiro pra pagar o aluguel.
Não é difícil imaginar o quão legal deve ser a vida de um nômade, que corre o mundo com um violão debaixo do braço. Onde chega, Camila conhece uns brasileiros e consegue uns bicos em bares. E assim vai sobrevivendo.
Esse, é claro, não é o tipo de vida que pessoas normais, como eu acho que sou, desejem por mais de um minuto. As consequências são imprevisíveis. Mas que deve ser legal, ah deve...

Nota interessante: Camila é carioca, mas tem raízes paraenses. O bisavô fundou o município de Alenquer, que, por sinal, é seu nome do meio. Mesmo em Praga, não nos livramos do estigma do Calypso. Ciente da nossa origem, quando voltou ao violão, Camila tocou umas notas de tecnomelody, o que preferimos entender como uma homenagem.

8 comentários:

Murillo disse...

Imagino que te deu vontade de levantar e "jogar o cabelo até o chão".
Hahahaha...
Que menina corajosa essa Camila, heim?

Ana Miranda disse...

Eu jamais teria coragem para viver assim, "a céu aberto", sem eira nem beira.
Mas acho que deve ser muuuuuuuuuuuito bom ser esse ser desapegado de coisas materiais e ficar correndo atrás dos sonhos.
Eh...eh...eh... Os meus sonhos são todos materiais...
Daqueles que se precisa de emprego e grana para pagá-los...

Yúdice Andrade disse...

Eu teria avisado que se ela tocasse calipso a amizade terminaria!
Sem dúvida, viver assim exige muito desprendimento e coragem. Eu jamais faria. Sou um quadradão com arestas duras...

Luiza Duarte Leão disse...

Murillo, não entendi! Explique-se! haha.

Ana, sei lá se ela tem sonhos! Bem, deve ter, claro, mas objetivos concretos, eu não percebi. Acho que ela simplesmente vai vivendo!

Yúdice, nós avisamos, mas ela foi tão simpática, que perdoamos! Depois, ficou tocando músicas românticas pro "casal em lua de mel". Quase perdemos o jazz!

Murillo disse...

Coisas de Comédia Mtv!Hahaha...
Dá uma olhadinha http://www.youtube.com/watch?v=31ZJ2SrPc1I

Val-André Mutran  disse...

Quem sabe a felicidade suprema está no que a vida nos descortinará no amanhã?
Enquanto isso.
Apenas, viva!

Val-André Mutran  disse...

Ah!

Estás linkada.

Pois não.

Val-André Mutran  disse...

Go! Luiza.
http://blogdovalmutran.blogspot.com/2010/11/grobertrotterwoman.html