sábado, 14 de agosto de 2010

Motor da vida

Definitivamente, a vida só tem sentido quando ainda temos esperança de que o melhor ainda está por vir, ou seja, quando ainda acreditamos que, a despeito de estarmos ou não satisfeitos com a vida que levamos até então, algo melhor nos espera na próxima etapa.
Dei-me conta disso no ano passado, na ocasião das comemorações dos 40 anos da chegada do homem à lua. Houve uma proliferação de matérias na época, com histórico, curiosidades e outros blá-blá-blás que não me interessavam, já que o espaço definitivamente não desperta a minha curiosidade. As pessoas, porém, sempre me interessam, de forma que li de bom grado as reportagens sobre os astronautas que fizeram parte da missão. Os anos que se passaram não foram nada bons para eles, que tiveram problemas como depressão, alcoolismo, síndrome do pânico, etc.
Naquele instante, me dei conta que a vida, depois de ir à lua, deve ter sido demasiadamente sem graça. Até para mim que, como disse, não sou fascinada por questões extra-terrestres, a idéia de visitar a lua pareceu gloriosa. Como poderiam os astronautas achar graça na vida quando, definitivamente, seu feito mais magnânimo já havia sido passado e nada que viesse a seguir poderia superá-lo? Nas palavra de Edwin Aldrin, um dos que andou na lua (e que teve sua fama totalmente apagada pelo sucesso da frase de efeito de Neil Amstrong), "que pode fazer um homem, depois de ter andado na lua?".
Uma semana depois, li uma coluna, que não me recordo agora de quem era (acho que do Roberto Pompeu de Toledo), que falava exatamente sobre isso: o motor da vida é a expectativa do que ainda temos para viver. Quando adolescentes, achamos que só seremos felizes quando conquistarmos nossa liberdade. Quando iniciamos a vida adulta, queremos um bom emprego, um amor, filhos. Após conseguirmos isso, temos certeza que só seremos felizes quando acompanharmos o crescimento das crianças, suas conquistas. Os objetivos vão mudando, mas o princípio é sempre o mesmo: o melhor ainda está por vir.
Creio que isso explique também as frustrações e angústias de todos que alcançam a glória muito cedo: esportistas, modelos, atores e outras categorias que dependem do viço da juventude para se manterem na atividade. Ao não se prepararem para a mudança de objetivos, como os comuns, a angústia e a frustração chegam de forma avassaladora.
Outros que não esperam mais que o melhor chegue são os idosos, que lembram com saudade não só dos tempos em que faziam e aconteciam, mas, principalmente, dos tempos em que ainda tinham esperança.
Ironia das ironias, mesmo aqueles que perdem todas as forças e todas as expectativas, e decidem tirar a própria vida, ainda tem a esperança de que algo melhor ainda esteja por vir, pois sentir nada pode ser bem melhor do que continuar sentindo. A esperança, então, também pode ser o motor da morte.

2 comentários:

toniachalu disse...

Adorei a postagem inteira, mas amei especialmente o final. Realmente a morte pode ser, em muitos sentidos, uma forma de esperança.
Eu acredito, sinceramente, que Deus nos oferece uma vida cheia de outros aprendizados depois da morte.
Então, mesmo quando de tudo já se experimentou (liberdade, sucesso profissional, amizades verdadeiras, um grande amor, filhos e suas conquistas), ainda resta viver as simples (e não menos prazerosas) coisas dessa vida esperando sem pressa pelas novas experiências que o outro lado da vida pode propocionar.
Espero que por lá existam blogs tão bons como este :)
Beijos, amiga,

Tônia.

Luiza Montenegro Duarte disse...

Alguém já te disse que ficaste muito sabida esses tempos? :)
Minha admiração por ti só cresce, amiga. Ainda mais nessa fase em que estás com uma nova e mais madura visão da vida e da morte.
Beijos saudosos!