terça-feira, 24 de agosto de 2010

Índices Econômicos não dizem tudo

Todos os dias, quando eu saio na rua, me incomoda a lenda de que o Brasil é um país desenvolvido. Podemos sim ter a oitava maior economia do planeta, caminhando para ser a quinta, segundo prognósticos de especialistas. Podemos ter um crescimento chinês, de mais de 7%, neste ano. O nível de desemprego pode ser considerado satisfatório. Não podemos, entretanto, dizer que somos desenvolvidos. Chega a ser uma blasfêmia.
Tratei desse assunto anteriormente. Não seremos desenvolvidos enquanto for possível encontrar cinco seres humanos dormindo na rua, cobrindo-se com um pedaço de papelão velho, em um trajeto de apenas três quarteirões (número contabilizado por mim, hoje de manhã). Não enquanto pessoas revirarem lixo buscando alimentos que outras descartaram. Não enquanto nossos estudantes ficarem em 48º lugar em leitura, 53º em matemática e 52º em ciências, entre 57 países, avaliados pelo PISA, o programa que avalia a educação em escala mundial. Não seremos uma grande nação enquanto nosso coeficiente Gini, que mede a desigualdade nos países, for 0,54, em uma escala de 0 a 1, sendo 1 a desigualdade completa.
Usar apenas a economia para medir o crescimento esconde nossas mazelas. O desenvolvimento econômico é bem vindo, por viabilizar o desenvolvimento social, mas, sozinho, não significa nada, não vale de nada.
Crescendo de forma desigual, como sempre crescemos, as únicas notícias que produziremos serão desse tipo. Não servem pra nada. Precisamos de mais do que isso.

sábado, 14 de agosto de 2010

Motor da vida

Definitivamente, a vida só tem sentido quando ainda temos esperança de que o melhor ainda está por vir, ou seja, quando ainda acreditamos que, a despeito de estarmos ou não satisfeitos com a vida que levamos até então, algo melhor nos espera na próxima etapa.
Dei-me conta disso no ano passado, na ocasião das comemorações dos 40 anos da chegada do homem à lua. Houve uma proliferação de matérias na época, com histórico, curiosidades e outros blá-blá-blás que não me interessavam, já que o espaço definitivamente não desperta a minha curiosidade. As pessoas, porém, sempre me interessam, de forma que li de bom grado as reportagens sobre os astronautas que fizeram parte da missão. Os anos que se passaram não foram nada bons para eles, que tiveram problemas como depressão, alcoolismo, síndrome do pânico, etc.
Naquele instante, me dei conta que a vida, depois de ir à lua, deve ter sido demasiadamente sem graça. Até para mim que, como disse, não sou fascinada por questões extra-terrestres, a idéia de visitar a lua pareceu gloriosa. Como poderiam os astronautas achar graça na vida quando, definitivamente, seu feito mais magnânimo já havia sido passado e nada que viesse a seguir poderia superá-lo? Nas palavra de Edwin Aldrin, um dos que andou na lua (e que teve sua fama totalmente apagada pelo sucesso da frase de efeito de Neil Amstrong), "que pode fazer um homem, depois de ter andado na lua?".
Uma semana depois, li uma coluna, que não me recordo agora de quem era (acho que do Roberto Pompeu de Toledo), que falava exatamente sobre isso: o motor da vida é a expectativa do que ainda temos para viver. Quando adolescentes, achamos que só seremos felizes quando conquistarmos nossa liberdade. Quando iniciamos a vida adulta, queremos um bom emprego, um amor, filhos. Após conseguirmos isso, temos certeza que só seremos felizes quando acompanharmos o crescimento das crianças, suas conquistas. Os objetivos vão mudando, mas o princípio é sempre o mesmo: o melhor ainda está por vir.
Creio que isso explique também as frustrações e angústias de todos que alcançam a glória muito cedo: esportistas, modelos, atores e outras categorias que dependem do viço da juventude para se manterem na atividade. Ao não se prepararem para a mudança de objetivos, como os comuns, a angústia e a frustração chegam de forma avassaladora.
Outros que não esperam mais que o melhor chegue são os idosos, que lembram com saudade não só dos tempos em que faziam e aconteciam, mas, principalmente, dos tempos em que ainda tinham esperança.
Ironia das ironias, mesmo aqueles que perdem todas as forças e todas as expectativas, e decidem tirar a própria vida, ainda tem a esperança de que algo melhor ainda esteja por vir, pois sentir nada pode ser bem melhor do que continuar sentindo. A esperança, então, também pode ser o motor da morte.