quarta-feira, 9 de junho de 2010

A campanha eleitoral, o medo e o Bolsa Família

Política é uma coisa engraçada mesmo. Nas eleições de 2002, a estratégia do PSDB era fazer com que o povo acreditasse que Lula era um comunista-comedor-de-criancinhas, que colocaria a perder tudo o que tinha sido realizado até então. O auge da campanha terrorista foi a famosa declaração de Regina Duarte, em um dos grandes micos da década, dizendo que tinha medo.
As circunstâncias, todos sabem, mudaram e hoje o comuna é o Presidente da República mais bem avaliado da história, razão pela qual tenta se utilizar da tática outrora empregada contra ele: nós devemos ter medo, muito medo, de trocar de governo.
Considerando que a política econômica foi mantida, a propaganda oficial (na verdade, deveria ser propaganda eleitoral, mas não é o que se vê) nos diz que devemos temer pelo fim dos programas sociais, principalmente o Bolsa Família, grande trunfo do Governo Lula.
Enquanto os beneficiados pelo programa se arrepiam só de pensar na possibilidade, a classe média fica em polvorosa. Acabar com o Bolsa Família é tudo o que ela queriam, afinal, acredita que o programa é assistencialista, eleitoreiro e cria uma classe de desocupados que não quer trabalhar porque recebe R$95,00 do governo. Dizem até que tem interior em que falta mão-de-obra. Piada, né?
Óbvio ululante que, em se tratando de Brasil, não é um programa perfeito e se presta a objetivos pouco nobres, mas seus méritos não podem ser desprezados. Especialistas argumentam que o programa não reduziu a miséria e que, portanto, não cumpriu seu objetivo.
No site do Ministério do Desenvolvimento Social, é possível encontrar os objetivos declarados do programa, que são: promoção do alívio imediato da pobreza, por meio da transferência direta de renda à família; reforço ao exercício de direitos sociais básicos nas áreas de Saúde e Educação, por meio do cumprimentos das condicionalidades, o que contribui para que as famílias consigam romper o ciclo da pobreza entre gerações; coordenação de programas complementares, que têm por objetivo o desenvolvimento das famílias, de modo que os beneficiários do Bolsa Família consigam superar a situação de vulnerabilidade e pobreza. Não se fala, portanto, em erradicar a miséria.
O Ministério, inclusive, reconhece, segundo matéria do Correio Brasiliense, que não houve diminuição da miséria, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, o que foi constatado em pesquisa do próprio órgão, que considera que a estabilidade é natural, "pois a transferência de renda que o programa realiza não permite mudanças imediatas nas condições estruturais da pobreza. O objetivo é o alívio imediato da insuficiência de renda e o fortalecimento do acesso à educação e à saúde”.
Na mesma repostagem, a Ministra Desenvolvimento Social e Combate à Fome, Márcia Carvalho, admite que um único programa não resolverá uma situação histórica e complexa, acrescentando que “a transferência de renda tem função complementar, de mobilizar a renda e os serviços”.
Inúmeras pesquisas mostram que o programa é necessário, à curto prazo. Os críticos não deixam de ter razão, quando dizem que o importante é a implantação de programas que criem emprego e renda, mas acredito que as ações devem ser paralelas, pois metas desse tipo são à longo prazo e quem tem fome tem pressa.
Em artigo brilhante, o economista Alberto Carlos Almeida demonstra que o auxílio do governo é a única oportunidade para milhões de brasileiros que vivem  à margem do desenvolvimento do país. Para eles, não há outra opção e o trabalho simplesmente não compensa. Nas cidades, somos estimulados a estudar, trabalhar e melhorar nossa qualidade de vida; percebemos isso na nossa realidade. Nos rincões do país, isso é balela; o sujeito não percebe nenhuma melhora em sua vida com o fruto do seu trabalho. Não existe uma carreira, um projeto de vida; não há grandes expectativas, só o subemprego.
A compreensão dessa realidade é difícil para os que tem escolaridade mais alta, que podem buscar as oportunidades com as próprias pernas. Segundo o pesquisador, 16% da população é contra o programa, parcela majoritariamente formada por quem tem nível superior.
Quem tem o filho estudando em escola particular não dá importância para o fato de os beneficiários do programa terem tido uma elevação na aprovação escolar ou abandonarem muito menos a escola. Não se dão conta de que é uma oportunidade de rompimento do círculo de miséria e ignorância que os cerca, a chance de ter um emprego com carteira assinada, de não seguir o mesmo caminho de seus pais, que nunca tiveram a menor expecativa de prosperar.
Ainda não é possível dizer se o governo está buscando as tais portas de saída para que as famílias beneficiadas deixem de ser dependentes do auxílio, mas os índices de criação de empregos no país apontam que sim. Não acredito que o programa seja suficiente por apenas uma geração, pois a miséria foi construída em muito mais tempo.
O Bolsa Família custa 0,4% di PIB do país. Para mim, é um custo que vale à pena. Dobrá-lo, como quer o governo, pode até ser eleitoreiro, mas atende aos seus fins, de alívio imediato da pobreza e reforço ao exercício de direitos básicos do cidadão.
Voltando ao tema eleitoral, não acredito que devemos temer a erradicação do programa. Talvez não pelo nobre coração do candidato José Serra, mas porque isso seria um suicídio eleitoral. Então, aos 83% dos brasileiros que apoiam de alguma forma o Bolsa Família (segundo Almeida), acho que não devemos ter medo